E dando prosseguimento às boas de 2018, seguimos agora para os lançamentos internacionais. Temos rock, pop, R&B, instrumental, música eletrônica… tem algumas coisas que eu realmente acho que deveriam ter ganhado mais destaque nas listas de fim de ano e que talvez nem precisassem estar aqui. Mas aí é a vida e eu venho aqui cumprir com minha obrigação de falar “pode ouvir esse bagulho diferenciado porque tá valendo a pena”.

A Beacon School – Cola

Esses dias li alguma postagem dizendo “em algum dia você e seus amigos da rua saíram pra brincar uma última vez, mas vocês não sabiam disso”. Esse álbum é um pouco sobre isso: nas oito faixas que o compõem, a ambiência criada é de nostalgia de infância bem vivida, de adolescência bem aproveitada e de experiências de vida sendo aproveitadas exatamente da maneira como devem ser: espontâneas. O álbum começa com um riff de guitarra em loopinge logo se mistura com baixo e bateria em tempos diferentes. O que tinha tudo pra soar estranho desperta a curiosidade do ouvinte que logo se convence que aquilo ali tem o potencial de ser mais profundo do que se tinha ideia. Ainda que muito preciso na instrumentação [A Beacon School é a banda-de-um-homem-só chamado Patrick J. Smith, o que faz com que tudo seja milimetricamente pensado], tem-se essa sensação de espontaneidade das maiores lições da vida: a parte instrumental de It’s Late é basicamente uma viagem dentro da consciência de um garoto de castigo; JCult é quase que uma despedido a algum amigo de infância durante uma brincadeira; Ash soa como uma carta de amor aos amigos de adolescência, aquele tipo de amor que todo mundo já jurou os amigos no Ensino Médio. Ouvir esse disco é realmente uma experiência diferenciada.

OUÇA: Algernon, It’s Late, Ash

Big Red Machine – Big Red Machine

Dez anos depois de Justin Vernom [a mente por trás de Bon Iver] e Aaron Dessner [guitarrista da banda The National] se juntarem pela primeira vez para fazer um som, finalmente rolou o lançamento de um álbum dessa colaboração. E saiu algo incrivelmente interessante: é como se fosse uma continuação mais sóbria e [bem] menos experimental do segundo álbum do Bon Iver, agradável aos ouvidos e aos sentimentos. E é um álbum bem introspectivo – afinal, não se poderia esperar algo diferente vindo dessa mistura, certo?

OUÇA: Lyla, People Lullaby, I Won’t Run From It

Charlotte Day Wilson – Stone Woman

A voz de Charlotte é a porta de entrada para drogas mais pesadas. Em 2016 já havíamos tomado conhecimento disso tanto devido à sua participação na música In Your Eyes, presente no já clássico álbum “IV” do BadBadNotGood, quanto devido ao EP “CDW”, lançado no mesmo ano; em 2017 participou até do elogiadíssimo “Freudian”, do Daniel Ceasar. Enquanto isso a vimos se tornar uma grande artista e ativista LGBT e a lançar essas fantásticas músicas do “Stone Woman”. É um problema porque o gosto de “quero mais” escorre forte dos ouvidos. É um som extremamente urbano, penetrante. É irresistível.

OUÇA: Stone Woman, Doubt, Funeral.

Dream Wife – Dream Wife

O punk come solto nesse álbum de estreia da banda meio inglesa, meio islandesa Dream Wife. O trio formado pelas moças Alice Go, Rakel Mjöll e Bella Podpadec. Se apresentaram no Lollapalooza americano e entrou na lista de melhores shows da Rolling Stones devido ao show enérgico e empolgante. E é difícil imaginar algo diferente quando se ouve esse discão agitado, cheio de guitarras e palmas. Hey Heartbreaker é uma música que poderia facilmente ser abertura de qualquer série adolescente; Let’s Make Out e Love Without Reason mostram que a preocupação não é exatamente fazer músicas com letras introspectivas e complexas, mas sim simplesmente sair vivendo da maneira mais livre e intensa que der. A verdade é que às vezes a vida é exatamente isso, não é mesmo?

OUÇA: Let’s Make Out, Fire, F.U.U.

Film School – Bright To Death

O shoegaze / dream-pop volta pra essa lista com o quarto disco da banda Film School. Na verdade, foram oito anos de longa espera por ele. E valeu muito a espera: um dos melhores da banda, se não o melhor e mais completo. A banda seguiu esse rumo mais mágico e etéreo do dream-pop e nos presenteou com um dos melhores álbuns do gênero dos últimos anos. O álbum tem algumas músicas relaxantes e outras banhadas a guitarras; algumas realmente atuais, que você sabe que tá em 2018, e outras onde você é transportado pro quarto de um rebelde sem causa dos anos 1980 ouvindo The Cure em vinil trancado no quarto. E é por essas e outras que esse álbum está aqui.

OUÇA: Crushin’, The Celebration, Here in The Shadows

Girl Ultra – Adiós

Da mesma escola musical que Kali Uchis, Jamilla Woods e Jorja Smith, Girl Ultra é o pseudônimo da mexicana Nan de Miguel. Surgindo como uma diva, Girl Ultra não faz apenas de sua voz um meio de sensualidade, mas usa cada instrumento disponível como uma arma fundamental para criar aquele climinha gostoso. Ela faz R&B pegando elementos do deep house e desenha algo que definitivamente não deveria ter passado batido em 2018. [Juro, galera, às vezes parece até uma dessas músicas da Anitta].

OUÇA: Lllama, Abril, Lejos

Good Morning – Prize / Reward

Diretamente da inóspita Austrália, a banda Good Morning traz a simplicidade de seus arranjos num álbum que não desaponta em nada a galera que já os acompanhava anteriormente. Depois de EPs e singles intrigantes, eles deixam a carne no ponto num trabalho com dez faixas curingas que se encaixam em qualquer momento do dia, desde não querer sair da cama até esperar pra ir sentado no ônibus na volta pra casa, passando por querer se isolar na hora do almoço pra não ter nenhuma conversa desagradável. Melhor custo/benefício possível.

OUÇA: Just a Man, After You, Escalator

Neneh Cherry – Broken Politics

Neneh Cherry é uma cantora que marcou época. Ali na virada da década de 1980 pra 1990, sua voz virou ícone da dance music. Depois de grandes hiatos [chegou a ficar 16 anos sem lançara nada novo], ela volta pra um sexto álbum bem pessoal e reflexivo [“’cause I have na allergy tom y realness”], buscando entender quem somos e qual o nosso lugar numa sociedade tão instável e pegando temas como depressão, machismo e posse de armas. A produção ficou por parte do inglês Four Tet, que ajudou a criar uma ambiência eletrônica e experimental que casou e muito com a voz de Neneh. Sobrou até pra uma música co-produzida por Robert 3D del Naja, um dos gênios por trás do som da dupla de trip hop Massive Attack.

OUÇA:  Fallen Leaves, Shot Gun Shack, Soldier

Ólafur Arnalds- re:member

Demorei pra botar um álbum instrumental aqui, né? E curiosamente é o único dessa lista. Mas a modalidade tá muitíssimo bem representada: o islandês Oláfur Árnalds nos deu alguns dos melhores 47 minutos desse ano e que graças a Odin podem ser reproduzidos à vontade. Misturando arranjos orquestrados  com elementos da música eletrônica, Oláfur compôs temas aconchegantes, daqueles que aquecem o coração, dando às vezes a sensação de que sua vida é um daqueles maravilhosos documentários sobre a natureza, a vida e o universo que a BBC faz volta e meia. É sem dúvida alguma um dos melhores álbuns de 2018 – e ypsilon se destaca como uma das melhores músicas do ano.

OUÇA: unfold, brot, ypsilon

Ought – Room Inside The World

Lembro perfeitamente que a primeira vez que eu me liguei no quanto esse álbum é bom eu tava dormindo e acordei no meio dele me perguntando com certa urgência o que tava acontecendo. E acaba sendo uma frustração pessoal minha com o mundo o fato de esses caras não terem um reconhecimento maior. “Room Inside The World” um dos álbuns de rock mais empolgantes dos últimos anos, trazendo influência das melhores bandas de da época do new wave e do post-punk, como The Cure, Joy Division etc. O baixo pungente, o cantar meio fantasmagórico de Tim Darcy, as guitarras que beberam na mesma fonte de Siouxsie & The Banshees [que já teve o próprio Roberto Smith como guitarrista] fazem desse álbum tão ótimo quanto nostálgico.

OUÇA: Disaffectation, Desire, Take Everything

Part Time – Spell #6

Mais um álbum de nostalgia new wave oitentista, mas agora da galera menos obscura, tipo Prefab Sprout, Hall & Oates e The The. Os sintetizadores são onipresentes em todas as músicas, o baixo é bem marcadinho e conduz a música de maneira que você pensa que não poderia ser melhor e rola até surpresa no solo de saxofone em I Can Treat You Better, uma deliciosa música que conta com participação especial deAriel Pink. É curioso que é o quinto álbum da banda em 7 anos, uma média razoavelmente alta, mas que não perde qualidade; aliás, esse se mostra como um dos melhores álbuns dos californianos.

OUÇA: I Can Treat You Better, Spell #6, It’s Alright With Me

Soccer Mommy – Clean

O terceiro álbum da Americana Sophie Allison [a.k.a. Soccer Mommy] começa com a amargurada Still Clean, que trata sobre a desromantização de um relacionamento de onde nada que se espera vai realmente acontecer – a frase “I guess I’m only what you wanted for a little while” deixa isso bem claro. E ela segue nessa linha de “quebrar expectativas floridas e idealizadas” ao longo do álbum: em Cool ela cria a figura da garota ideal, descolada e que não tá nem aí pra muitas coisas, mas que ela mesma sabe que não é tão boa assim; Your Dog fala sobre se ver num relacionamento abusivo; Flaw mistura culpa, raiva e o gosto amargo da decepção… é um álbum para ser absorvido com calma, mas que não pode e nem deve ser deixado de lado.

OUÇA: Cool, Blossom [Wasting All My Time], Wildflowers

Stephen Malkmus & The Jicks – Sparkle Hard

O rock tá vivo e eu tenho como provar: “Sparkle Hard”, quarto álbum de Stephen Malgmus & The Jicks é uma ode não só à carreira do vocalista, mas principalmente ao gênero mais consolidado da música, sem deixar pra trás críticas sociais bem atuais e pinceladas no cotidiano regular – algo que Stephen Malkmus faz desde sua época à frente do Pavement, uma das bandas mais importantes do indie rock. A discografia da banda tem algumas assinaturas, como frases que são quase que convocações para se ter atenção no mundo em que se vive [Future Suite], as crises e hipocrisias da sociedade americana [Middle America] e grandes momentos instrumentais quase orgasmáticos [Kite]. É, talvez, o melhor trabalho da banda como um conjunto: há sintonia, é tudo muito harmônico; ninguém sobressai, nem mesmo o mestre Malkmus.

OUÇA: Solid Silk, Kite, Difficulties – Let Them Eat Vowels

The Marías – Superclean, Vol II

Eu falei deles aqui no início do ano no post de bandas pra ficar de olho durante o ano. Não deu outra: “Superclean, Vol II” traz uma versão aprimorada e mais sensual do clima íntimo criado em seu primeiro volume. É, do início ao fim, uma experiência extremamente agradável, daquelas que você só fecha os olhos e se deixa levar enquanto deixa o vento passar pelos dedos. Se antes havia curiosidade pro segundo volume, agora existe ansiedade pro que virá no futuro dessa mistura de EUA e Porto Rico.

OUÇA: Cariño, ABQ, Clueless

Tropics – Nocturnal Souls

Anunciado como o ultimo trabalho de Chris Ward sob o nome artístico Tropics, “Nocturnal Souls” vem fortemente influenciado pelos amigos do BadBadNotGood [olha eles de novo aí] e traz novos ares pra música do Ward. A bateria mais acústica faz um casamento improvável com todo o arcabouço eletrônico do projeto; é sempre um prazer ouvir a voz de Ward meio a todos os instrumentos que ele põe com tanto esmero nas músicas; o clima noir criado em algumas das músicas [Keep Me Turning Back, por exemplo] é enfeitiçador. E devido a tudo o que o álbum representa, seja o fechamento de um ciclo com chave de ouro ou uma página tão distinta das outras já escritas pelo artista [ainda acho que “Rapture”, seu álbum anterior lançado em 2015, é um dos melhores dessa década], eu nem teria como deixar esse álbum fora dessa lista.

OUÇA: Come Home, Velvet, Overturning

VanJess – Silk Canvas

Ivana e Jessica Nwokike são irmãs nascidas nos EUA e de ascendência nigeriana. Passaram parte da infância na Nigéria e outra nos EUA, onde se apresentam juntas desde pequenas em números musicais até mesmo no colégio. Ao lançarem “Silk Canvas”, conseguem chamar atenção justamente por capturar a essência do R&B dessa década: batidas envolventes, letras sexies-sem-serem-vulgares e colaborações animadoras –nesse álbum tem até Masego e GoldLink, que têm bombado nos últimos anos.

OUÇA: Control Me, Through Enough, The One

______________________________________________________________________________

É assim que termina essa listinha PORRETA de coisas que podem ter passado batidos nesse ano de 2018. Não subestime nada aqui. Pode não ser o mainstream, mas qualidade aqui é o que não falta. ;)