Finalmente esse ano louco chamado Dois Mil e Dezoito veio ao fim. Laços de amizade reforçados e relações parentescas desfeitas, o Hexa não veio, memes, resistência… o ano foi uma montanha russa pra todo mundo que vive em terras brasileiras. E, obviamente, muita música. Muita mesmo. E muita coisa boa.

Esse post é realmente pra você esfregar na cara do tio chato que o Brasil continua fazendo muita música boa SIM. Pra todos os gostos, de todas as maneiras, com muitas vozes e ritmos. Aqui eu trago só 16 dos álbuns que achei bacanudos nesse ano e que provam essa minha tese de que não estamos mortos – e que, aliás, estamos vivos e cada vez mais resistentes.

Importante falar que aqui eu vou falar de uns álbuns que não necessariamente foram tão comentados, ou que saíram nas listas de Melhores do Ano de sites especializados em música. Então vou fazer uma rápida menção a alguns nomes que lançaram coisas fodas nesse ano: Baco Exu do Blues, Duda Beat, Rubel, Mahmundi e Maurício Pereira.

Agora vamos ao que interessa:

Astronauta Marinho – Perspecta 

Depois do ótimo “Menino Sereia”, a banda instrumental Astronauta Marinho chega ao seu segundo álbum com um som mais maduro, mais inventivo e explorando seu potencial de criar ambiências. Quem curtiu o tão elogiado Fundação, da banda E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, certamente vai gostar e muito do “Perspecta”, que é uma grande viagem cósmica do sexteto cearense.

OUÇA: Banzai, Vaai, Cariri

BK’ – Gigantes

BK’ chega em seu segundo disco falando alto pra se um gigante do novo rap nacional. Com um rimas cortantes sobre a realidade mais pesada do que deveria (“tudo o que eu faço é guerra / tudo o que eu vivo é guerra”, ele diz no refrão de Julius), o paulista reflete sobre ser negro e jovem numa sociedade da qual ele não faz questão de ser sócio, que constantemente o lê de maneira que lhe convém. Fala de amor, de depressão, de amigos, de farra, dos conflitos internos, de identidade e do outro (que assume diversas formas). Um disco importante, doloroso, empoderador até o talo que traz uma reflexão profunda sobre o jovem negro na sociedade brasileira – Abebe Bikila acaba por ser uma das melhores músicas do ano por isso.

OUÇA: Julius, Abebe Bikila, Falam

Clara Castro – Caostrofobia

O caos poético de Clara Castro encanta. Pega o jazz, mistura com o rock, joga com o samba; se apaixona, se liberta e se sente à vontade pra fazer tudo isso. Em “Caostrofobia”, seu primeiro álbum, Clara traz um apanhado de canções autorais, como a otimista Sobe e a firme Espelho, e uma ótima regravação de Um Trem Para as Estrelas, de Cazuza e Gilberto Gil, que fazem desse álbum um dos mais acessíveis dessa lista.

OUÇA: Caostrofobia, Um Trem Para as Estrelas, Sobe o Sol

Clau Aniz – Filha de Mil Mulheres

Eu poderia fazer um post enorme sobre esse álbum maravilhoso da cearense Clau Aniz, que é, pra mim, o melhor álbum de 2018. Enquanto esse posto não sai (pretendo fazê-lo um dia), adianto o seguinte: não demora pra você se ver envolto na magia de Clau. No primeiro minuto, antes mesmo dela começar a cantar, você já está completamente entregue à percussão e ao trompete; quando ela começa a cantar ela surge como uma miragem ao longe: você quer acreditar que aquilo existe e sabe que só vai dar pra ter certeza se caminhar até o fim. E por mais que você chore (algumas vezes) no caminho, a paradoxal brutalidade sutil te bagunça, te treme, te conduz a vários cantos do seu âmago. Chega a ser curioso como esse disco tem saído em tantas listas internacionais e tão pouco aqui pelo Brasil. Por isso, é meu dever fazer o mínimo e te dizer que com Clau Aniz não tem erro: pode até não parecer, mas o mundo é muito bonito sim.

OUÇA: Berro, Romana, Ererê

Confeitaria – Confins

Rola um certo conceito no álbum de estreia da banda mineira de post rock Confeitaria: ele começa com Genki Dama, que literalmente soa como se alguém estivesse acumulando energias para realizar algo grande; explode aos poucos em No Fio da Navalha, que devido à ambientação tão forte do baixo e dos arranjos tão pesados ganha um ar bastante soturno; ganha vida na maravilhosa Confins, que consegue passar, através da música, exatamente a mesma ideia de seu videoclipe, que é o despertar natural da vida, e emenda na alegre Lolipop. Brisa pede um momento de mais calma, mais atenção; é como se tudo estivesse em construção, sendo costurado aos poucos, repetidamente, até dar certo. E quando tudo finalmente dá certo, chegamos ao primeiro momento em que ouvimos alguma voz no álbum: Luísa Bahia pare algumas das melhores definições de paixão que você poderia ouvir. E é lindo, é brando. É como se todo o big bang que é o álbum culminasse nesse sentimento visceral e que tanto mexe com a gente – tal como esse incrível disco.

OUÇA: Confins, Lolipop, Granadilla

Cora – El Rapto

As recifenses do Cora trazem um disco cheio de shoegaze e cheio de metáforas freudianas e mitológicas (segundo o próprio grupo, o “rapto” é referência ao ocorrido com Perséfone, que volta à superfície depois de ter sido sequestrada por Hades e traz frutos dessa experiência). Cora canta em espanhol, em inglês, em português e traz uma sonoridade muito parecida com a da renomada banda americana Warpaint. Uma profunda viagem de autodescobrimento feminino – “E quando chacoalham os galhos do pensamento / A ordem do silêncio virá de dentro / Quem eu quero ser nessa constelação?” – que mais que vale a pena embarcar.

OUÇA: Kόρη, Tulpa, Ada

Dandara Manoela – Retrato Falado

Minha resistência é voz”. O álbum de estreia da catarinense Dandara Manoela brinda a tradição, o respeito e a mulher negra com um baixo bem grooveado e um sambinha gostosinho. O álbum é ora cantado, ora declamado, tal qual um sarau, soando várias vezes como a comunidade lamentando o fim da festa ou o tragicômico fim de alguma história de Nelson Rodrigues. Na verdade, há relatos (retratos falados, de fato) que de cômico não tem nada: da mesma maneira que fala de maneira poética e doce sobre o amor em Peixe, ela fala sobre as insistentes alegações sobre o fim do racismo em Dona Georgina e sobre “força pra poder seguir” depois de abusos sexuais em Denúncia e na absurdamente devastadora Retrato Falado, poesia que relata a vida de sua avó e de sua mãe.

OUÇA: Peixe, Dona Georgina, Retrato Falado

Dingo Bells – Todo Mundo Vai Mudar

Em que momento / Não percebemos surgir / Um ser-humano / Tão incapaz de ouvir”. A banda gaúcha Dingo Bells chega ao segundo álbum com a língua afiada e com uma sagaz compreensão sobre esse momento bizarro que vivemos não só como sociedade, mas como humanidade. Acordar e observar o que nos tornamos é complicado, gera ansiedade, gera excitação e urgência de se fazer ouvido – às vezes por meras preocupações de sobrevivência. Rola reflexão sobre o quanto somos e estamos nós, sobre o quanto estamos dispostos a viver (e às vezes simplesmente não estamos). E rola também perceber que às vezes a gente só precisa arrumar a casa pra sentir-se em casa. Rola muita coisa, gente. Podem ouvir. Gaste bem o seu tempo.

OUÇA: Ser Incapaz de Ouvir, Meias Palavras, Sinta-se em Casa

mischramm – Mulheres, Heranças, Estados de Casulo (demo)

Embora apenas uma coleção de demos, “Mulheres, Heranças, Estados de Casulo” é uma sensível amostra do quanto se pode ter pra falar. São segredos que a cearence Emischramm quase que ininteligevelmente confessa com sussurros doces, criando um clima misterioso, neblinoso. É lindo de ouvir, acalma, mas também dói de tão real – a letra de Acalanto quase arranha a pele.

Infelizmente só está disponível no Bandcamp da menina: https://emischramm.bandcamp.com/album/mulheres-heran-as-estados-de-casulo-demos

OUÇA: Mães, Filhas; Pequeno Movimento, Acalanto

Iara Gomes – Dois Cantos

Por mais que o álbum (de estreia) seja da pianista Iara Gomes, é fácil perceber que os outros instrumentistas tem liberdade para criar e serem notados às suas maneiras. Indo do canto mais leve e calmo do jazz até seu diálogo com pandeiro bem sambeado, os instrumentos conversam, contam histórias, passam a bola um pro outro como se fosse uma resenha de amigos numa mesa de jantar regada a vinho.

OUÇA: First Light Out, Primeira Vista, Reverência

Inês é Morta – Inês é Morta

O post-punk dos anos 80 é forte com a banda paulista Inês é Morta. A banalidade cotidiana, insatisfação, o fim (afinal, “Inês é morta”) e outros temas bem cinzentos e nebulosos são abordados nas seis faixas do álbum de Inês que são rasgadas por guitarras bem sujas e socadas. Prato cheio pra quem é saudosista.

Também está disponível apenas no Bandcamp, mas sem caô que tá valendo fazer download grátis: https://inesmorta.bandcamp.com/releases

OUÇA: Longe de Mim, Já é Tarde, Sem Nome

Joe Silhueta – Trilhas do Sol

Vou me perdendo nas trilhas do sol,
perdido estou no brilho da lua
e a noite é uma estranha selva por onde meus passos vão…

Antes de toda manhã tem uma longa noite de diversas possibilidades. Enquanto a noite persegue o dia, nós nos desfazemos e refazemos no brilho da lua, no amargo do café, nos sonhos póstumos do dia que morreu e nunca mais virá. O coletivo brasiliense Joe Silhueta vem falar desse constante buscar da aurora que abre os caminhos de maneira lúdica nesse incrível (de ponta a ponta) álbum de folk rock psicodélico maravilhosamente abrasileirado, o primeiro completo da banda (que lançou alguns EPs desde 2016), que nasce como um daqueles álbuns que se permanecerem esquecidos por hoje, daqui a alguns anos serão redescobertos como um clássico que outrora foi subestimado.

OUÇA: Café Amargo, Memórias Póstumas, Ícaro

Matheus Torreão – Disco de estreia de um jovem recifense que venceu um reality show, mudou​-​se para a República Independente da Bossa Nova, fez um mestrado acadêmico decididamente irrelevante, teve seu instável talento para a comédia contratado pela indústria do sitcom e usou todo o dinheiro que ganhou até aqui​ para gravar nove canções.

Como o nome do disco já diz bastante coisa (provavelmente muito mais do que qualquer outro nome de disco), me resta elogiar a elegância de Matheus Torreão em pular do samba pro baião e depois pro rock e depois pro que ele quiser, abordar tantos temas curiosos (erotismo e amor, experiências homoafetivas e até a viagem do colega de quarto como oportunidade legal de pagar de casal em casa com o broto) com com uma linguagem extremamente intimista.

OUÇA: Baião do Apocalipse, Sistema Nervoso, Estrela Pornô

Moons – Thinking Out Loud

E mais uma vez o Moons atropela a nossa mente com sua calmaria e simplicidade sonora e lírica. Depois do debute em “Songs of Woods and Fire” (2016), o segundo disco da banda mineira vai contra toda a pressa cotidiana: cheira a capim, soa como corrente do rio batendo nas pedras e celebra o amor como um ciclo tão natural quanto a vida e seus altos e baixos. O disco é exatamente isso: a trilha sonora para contemplar a vida e amar.

OUÇA: Fire Walks With Me, My Cave, In a Silent Mood

Paola Kirst – costuras que me bordam marcas na pele

Voz e arranjos lindos marcam o disco de estreia da gaúcha Paola Kirst. Você só precisa ouvir o álbum uma vez pra entender porque ele tem que estar na lista. Foi isso que aconteceu comigo, pelo menos: finzinho da primeira música já bate uma preocupação do tipo “se o resto do disco não for tão bom quanto essa música eu vou ficar triste”. E o legal é que você não fica triste. Tem samba, jazz, MPB; tem dor, tem desejo, tem amor, tem protesto e tem poesia pra caramba e é cada coisa curiosa que chega a arrepiar o cérebro.

Potyguara Bardo – Simulacre

O álbum começa um diálogo entre em a atendente de um restaurante com a cliente sobre um produto enviado por engano – o shimagic. No caso, a cliente é a própria Potyguara Bardo, uma drag queen do Rio Grande do Norte que fala de aceitação, sexo, amor e otimismo tendo a lambada, o funk e o pop como pano de fundo. Curioso que nessa faixa/conversa [Simulacre (Cuisine de Revê)] de abertura, a atendente do restaurante deseja a Potyguara não um “bom dia” ou um “boa noite”, e sim “um ótimo momento dia” e, de fato, ouvir o álbum se torna uma experiência diferenciada (e bem humorada) no seu dia.

OUÇA: Mamma Mia, Lambada do Flop, Plene

OUÇA: Crendice, Charlie 04, Abandonada

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Pra ficar legal, segue aqui uma playlist com essas e várias outras coisas bem legais desse ano que artistas brasileiros lançaram durante o ano de 2018.

E que 2019 seja ainda mais bonito – e nos surpreenda, de fato, tanto dentro quanto fora do mundo da música.