As expectativas eram altas. O show em São Paulo havia gerado imagens incríveis de Erlend Øye & La Comitiva no meio da galera descendo as rampas do Auditório Simón Bolívar. Não tinha como esperar menos que um show realmente intimista, leve, bacana e divertido.

Quando cê chega no Circo Voador e vê o clima calmo e pessoas animadas, mesmo que em menor quantidade que o costume, você já acalenta o coração e já bota na cabeça que a noite vai render bem. E quando os caras entram do nada no palco e rola aquele tradicional ritual de caminhada pra debaixo da cúpula do Circo (sempre um momento de êxtase), só resta ao pública gritar e se entregar à noite.

Sintonia já desde o comecinho do show
Foto: @brennodelbosco

Logo depois da primeira música, Erlend propôs à plateia que pusessem os pôsteres do show à beira do palco para que todos pudessem curtir o show mais livres para poderem dançar (algo que ele mesmo não poupou em fazer no palco, mesmo que tão desengonçado quanto no clipe de I’d Rather Dance With You). E dali a gente já conseguia sacar a vibe leve que se seguiria no show.

…e a galera comprou a ideia de verdade
Foto: @brennodelbosco

A noite se desenrolou com muitas músicas do repertório de Erlend Øye e do Whitest Boy Alive. Fence Me In, Garota e Rainman fizeram a galera olhar pro palco com uma baita admiração; Upside Down, Figures e Intentions fizeram a galera acompanhar a banda com um carinho peculiar e foi bonito de ver o brilho no olhar do público.

Foram esses tipos de sorrisos e olhares durante o show inteiro
Foto: @brennodelbosco

As músicas em italiano deixaram o público um mais na dele – e algumas pessoas lá no fundão insistiam irritantemente em aproveitar esses momentos pra bater qualquer papo. Teve momento até em que a plateia fez coro em italiano pra alguma música do novo repertório da banda.

Aliás, falando em repertório, eles deram alguns excelentes presentes para os fãs brasileiros: além de uma versão acústica maravilhosa de For The Time Being, colaboração de Erlend com DJ Phonique feita em 2004, feita a luz baixa e com energia que contagiou a plateia como se todos estivessem numa discoteca, fomos brindados também com covers de clássicos do samba brasileiro – Luigi Orofini, um dos integrantes de La Comitiva, é cavaquinista e grande fã desse que é um dos principais símbolos culturais do Brasil. Tivemos  Juízo Final, de Nelson Cavaquinho, Casa de Bamba, de Martinho da Vila, e Mina do Condomínio, de Seu Jorge – as duas últimas tocadas enquanto Erlend esbanjava simpatia no dançando com as pessoas no chão do Circo.

O empolgado Luigi Orofini, de La Comitiva, esbanjando talento no cavanquinho
Foto: @brennodelbosco

Do que a galera mais queria ouvir – músicas do Kings of Convenience – tivemos Rule My World e Boat Behind, ambas cantadas a plenos pulmões por todos os presentes no recinto. Foi lindo ver como os violinos de Boat Behind foram brilhantemente substituídos por clarinete e trompete, o que deixou a canção quase lúdica, numa vibe meio baroque-pop à la Beirut.

Pra fechar o show com chave de ouro, 1517 tocada na mesma energia que For Time Being e numa versão estendida ainda com metais. Foi uma troca de energias absurda, com direito a repeteco de Erlend dançando na beira do palco. Provavelmente o melhor momento da noite – poucas pessoas diriam o contrário.

Foto: @brennodelbosco

Justamente num dos momentos mais esperados do show – o convite pro tradicional show-do-dia-seguinte-na-praia – Erlend deixou um gostinho amargo para o público carioca: ao pedir pra alguém levar bola de futebol para a praia no dia seguinte, comparou suas baixíssimas habilidades futebolísticas à competência feminina no esporte. Deu pra sentir o climão, até porque a maior parte do público era feminina. O machismo nosso de cada dia ainda nos é… de cada dia.

Num geral, à exceção desse momento, teve muita gente dançando, cantando com brilho nos olhos, comemorando aniversário (ou até mesmo o terceiro aniversário em algum show dele) e sendo feliz de uma maneira plena. Um show que não tem a pretensão de ser nada além do que realmente foi: leve e pontualmente empolgante, pra se curtir no meio da galera ou de pés pendurados na arquibancada do Circo Voador. E deu certo.

Foto: @brennodelbosco