Nesse ano a banda inglesa Coldplay completa 20 anos de seu primeiro lançamento. Não, não estou falando do “Parachutes”, primeiro álbum completo, lançado em 2000 e que deu um novo ar pra cena do pop rock inglês. Em maio de 1998 eles lançaram o primeiro EP, o “Safety”, que tinha apenas 3 músicas que já davam mais ou menos o rumo pelo qual a banda liderada por Chris Martin ia começar a traçar seus caminhos – e que hoje custa modestos R$5000,00 tamanha a raridade do negócio (foram apenas 500 cópias feitas).

O foco desse post não são os grandes clássicos da banda, como Yellow, The Scientist ou Viva La Vida. Vou falar de músicas que, às vezes, até alguns fãs desconhecem, que ficaram nos singles ou passaram despercebidas nos álbuns lançados pelo grupo.

No More Keeping My Feet On The Ground (1998)

Vou começar com essa música que ganha referência até na canção Strawberry Swing, do álbum “Viva La Vida or Death and All His Friends”, de 2008. É uma música curiosamente descontraída e alto astral até demais pr’aquela primeira fase da banda, quando ela ainda se vestia de preto, Chris Martin careca e tal. A sonoridade, por outro lado, é a da época: algo que te joga num dia nublado, céu bem cinza, a câmera rodando sem focar em nada muito específico, as pessoas nem ligando pra você. Baita música, baita som.

Only Superstition (1999)

Já um pouco mais descrente no mundo e mais niilista (antes de niilista ser cool), eles lançaram no EP “Brothers and Sisters”, de 1999, a música Only Superstition, que eu bato o martelo em dizer que é uma das melhores músicas da banda. O guitarrista Jonny Buckland sabia o que tava fazendo e rasgava as músicas sem piedade. Por mais deprê que Coldplay fosse, as músicas tinham uma energia forte. Não é aquela energia que hoje contagia os estádios e arenas, e sim algo bem mais individual, introspectivo. Fora essa letra que é uma coisa sensacional – “it’s only superstition / it’s only your imagination / it’s only all of the things that you fear and the things from wich you can’t escape”.

See You Soon (1999)

A primeira obra que eu comprei do Coldplay foi o CD/DVD Live 2003. Nessa época eles só tinha lançado dois álbuns e tinham algumas músicas que não estavam em nenhum deles. Uma delas é See You Soon, uma das únicas do EP “The Blue Room”, também de 1999, que não foram pro “Parachutes”. Saindo das reflexões pessoais e indo pra preocupação com uma outra pessoa, tema comum das músicas da banda, os caras nos brindam com menos de 3 minutos muito sutis e emocionantes. É basicamente Chris no violão, com um ou outro instrumento surgindo no fundinho da maneira correta e delicada dessa fase da banda.

For You (2000)

Chegamos aos anos 2000 com uma das músicas mais fofas da banda. Na verdade, pelo o que fui percebendo, foi a primeira música deles em que ouvimos Chris Martin no piano, uma marca registrada do Coldplay que veio se repetir em clássicos como Cloks e The Scientist. Tá no EP “Shiver”, lançado meses antes do “Parachutes”, e fala de esperança, troca e inspiração. Sente só a vibe que legal:

Life is For Living (2000)

É uma música escondida do “Parachutes”. Ela toca logo depois que termina Everything’s Not Lost, outra música maravilhosa e pouco comentada da banda. A música é um pedido de perdão e tem duas versões: a de álbum e a de show. A de show é incrível demais porque ela explode inesperadamente. Eles a tocaram no Rock in Rio de 2011 e foi um dos momentos mais emocionantes daquela noite incrível. Inclusive, saudades….

One I Love (2003)

Depois de lançar o “A Rush of Blood To The Head”, em 2002, eles mandaram alguns vários singles, coisa que eles passaram a fazer com certa frequência. One I Love foi um deles, que também tá no ao vivo de 2003. Muita guitarra, uma vibe meio A Whisper, do “A Rush…”, plateia empolgada e um agora ou nunca muito doido nessa declaração de amor.

Moses (2003)

Cês sabem que o nome do filho do Chris Martin com a atriz Gwyneth Paltrow é Moses, né? E isso faz com que Moses seja uma das músicas mais bonitas da banda. “Come on now, don’t you want to see? / Just what a difference you’ve made in me”. É muito amor, galera. Parada muito Coldplay, aquela fase solar sem perder a vibe deprê, uma coisa linda de doer. É bem possível que eu esteja escrevendo esse post por causa dessa música, inclusive.

The World Turned Upside Down (2005)

We’re part of a bigger plan / Don’t know what it is” tá logo na primeira estrofe da música do EP “Talk”, lançado antes do álbum “X&Y”, que chegou a nós em 2006. Muita contemplação e um mundo inteiro a ser explorado. Jonny Buckland sabendo cada vez mais o que fazia e mostrando qual ia ser o tom do álbum que a banda tava preparando. Um som bom que caiu como refresco pros caras.

Life in Technocolor II (2008)

Viva La Vida or Death and All His Friends” foi um dos álbuns mais comentados dos anos 2000. Revolucionário pra banda, pois lhes rendeu uma outra identidade visual e uma nova maneira de se apresentar, com espetáculos multicoloridos em arenas estádios, parada mó super produzida. Life in Technocolor é o instrumental que abriu esse álbum; alguém comentou que ela daria um excelente single e daí tivemos Life in Techonocolor II, que tira seu caráter instrumental e traz letras para falar sobre estar junto em momentos difíceis.

All I Can Think About Is You (2017)

Pulo temporal pra falar desse respiro de música chamada All I Can Think About is You. Ela faz o elo da nova vibe colorida e eletrônica da banda com o minimalismo da primeira fase. Bate até aquela saudade. Música de como um pensamento ou uma lembrança pode virar um refúgio em momentos difíceis – o que às vezes é tudo o que a gente precisa.

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Todas as músicas até agora foram lançadas em EPs, singles etc. Agora eu vou falar de algumas músicas que foram pros álbuns, caíram um pouco no esquecimento, mas que são fantásticas e merecem ser lembradas. Tipo…

Sparks (2000)

É uma das músicas que mais materializam o que é essa fase do Coldplay. Uma linha de baixo precisa, aquele violãozinho maroto e Chris cantando arrastado, quase parando, expondo a imperfeição humana numa poesia simples: “And I know I was wrong / But I won’t let you down / Oh yeah, oh yeah, oh yeah, I will, yes I will”. É a quarta faixa do primeiro álbum, “Parachutes”.

Warning Sign (2002)

O sinal de alerta de Chris nessa música começa a piscar quando o eu-lírico percebe que terminar o relacionamento foi um grande erro. Olhar pra trás e se arrepender de ter se encaminhado pro fim não é exatamente a sensação mais legal de se ter… e logo ela, tão comum. A música é quase um grito de socorro embelezado com violinos, aquele riff de guitarra que mareja os olhos e o fim lamentoso de Chris e seu piano que terminam o serviço e puxam as lágrimas pra fora. Tá no “A Rush of Blood To The Head”.

Green Eyes (2002)

No mesmo álbum tem essa maravilhosa declaração de amor para uma antiga namorada de Chris. Na real, ele parou de cantar essa música depois que começou a se relacionar com Gwyneth Paltrow, pois ele sentia que a performance a ofendia. Essa baladinha com vibe country é um dos grandes expoentes do lado romântico do cantor, onde ele desagua amor e entrega: “Because I came here with a load / And it feels so much lighter since I’ve met you”.

Politik (2002)

É uma das músicas mais explosivas do Coldplay. Escrita pouco após os atentados de 11/09/2001, a canção fala sobre como nos relacionamos e o que esperamos dos outros. É forte, um tanto desesperada, alternando voz e piano com momentos impactantes de muita porrada na guitarra e na bateria + com um desfecho maravilhoso acompanhado da frase “but give me love over this”.

Low [2006]

Taí uma música que não tem seu valor reconhecido. Já falei aqui no blog antes sobre esse álbum maravilhoso e profundo do Coldplay (X&Y, lançado em 2006) e essa música acabou passando batida nas rádios e na repercussão em geral. A faixa fala de depressão e da sensação de impotência frente às dificuldades que seu parceiro está passando. Aquela coisa de tentar animar a pessoa, ver que não surte efeito e daí bate a frustração… É uma música pra ouvir com calma, ainda que ela venha cheia de energia.

What If (2006)

Muitas perguntas feitas, nenhuma resposta e algumas conclusões arriscadas demais – riscos fazem parte da vida e essa é uma das sacadas mais geniais desse álbum. Quase flertando com o niilismo existencialista, Coldplay fala sobre rejeição, esperança e seguir em frente nessa música precisamente expansiva, que conduz o ouvinte, que cresce e abraça. Belíssima música num momento de novo rumo da banda.

Twisted Logic (2006)

Trazendo um pouco da vibe de Politik, Twisted Logic também vem com umas porradas, com um som que parece um alarme que anuncia que as coisas não vão bem. Isso conversa perfeitamente com a letra da música, que fala sobre cuidar do planeta, sobre crise e sociedade – sobre sobreviver, de fato.

Yes / Chinese Chant Sleep (2008)

A voz de Chris Martin vem completamente diferente do comum. Meio pesada, como se fosse um narrador de contos de terror – ideia que se reforça com os versos “When it started we were alright / But night makes a fool of us in the daylight”. Na verdade, é mais uma música que fala sobre se sentir sozinho e preso, estagnado. E quando Yes termina, vem a vigorosa Chinese Chant  Sleep que reflete a solidão de Yes como se Chris estivesse preso atrás de todas as guitarras que gritam na música.

42 (2008)

Ainda no “Viva La Vida”, 42 é uma música cuja letra poderia tranquilamente ser regravada num tom mais soturno e ser incorporada à trilha sonora de A Maldição de Hill House. Sério mesmo. Mas não vou dar spoilers. Só vou te dizer que essa música não é pouca coisa: “Viva La Vida…” não é um álbum super premiado à toa, há seus motivos… e essa música é um deles.

U.F.O. (2011)

Muita esperança nessa canção do álbum “Mylo Xyloto” (pra quem ainda se pergunta, lê-se “mailo zailoto” ou algo assim). É um dos arranjos mais simples da discografia da banda, numa música curta. É quase que uma música de luau. E fecha essa lista como aquele boa noite gostoso que Coldplay sempre deixa no ar