Nove mulheres choravam na sala de estar do apartamento da Juliana no flamengo. Minto, oito. A minha ficha ainda não tinha caído. A televisão já estava no mudo, mas as imagens da multidão vestida de verde e amarelo gritavam pra gente. Democracia é isso.

Outros gritos, esses vindo dos vizinhos da Ju, orgulhosos do que, pra nós, oito mulheres chorosas e uma perplexa, mais parecia um desastre.

Luisa se debruçou na janela e com toda força que tinha no peito, respondeu “fascistas” aos que comemoravam. No mesmo segundo que a verdade saiu da sua boca, o barulho de fogos de artifício estourava do lado de fora. Além de nós, as nove mulheres, ninguém ouviu seu grito.

Olhar fixo na parede, eu me sentia afundando no sofá, perdida naquela realidade que mais parecia um passado mofado, esquecido e distante. Engolida pelo meu próprio medo.

Ju e Livia se beijaram e limparam as lágrimas uma das outras. Elas formam um casal tão bonito e, nesse dia, tão triste.

A cerveja tinha acabado, e a vontade de beber também. A Ju ofereceu saquê. Aceitei, mas o entalo na garganta era tanto que a bebida não descia direito. Engasguei e Helena me cedeu uns tapinhas nas costas. Rimos por frações de segundos, e a lembrança das circunstancias presentes fecharam nossas bocas novamente.

Titi resolveu desligar a TV e colocar uma música, achou uma playlist chamada “resistência”. Belchior começou então:

“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte, pois apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte, e tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado…”

Primeiro uma, depois a outra, e antes do final do verso éramos um coro de nove mulheres, agora todas chorosas. Só percebi que chorava quando não consegui recuperar o fôlego pra continuar o “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro…”

A música terminou, e sinceramente não lembro qual a seguiu. Belchior me levou pra longe.

Voltei quando nos abraçamos, todas nós. Já tocava Chico à esse ponto.

As nove mulheres, uma por uma, todas se abraçavam. E por mais que o clima geral fosse de desespero nosso, e euforia alheia, naquela sala de estar parada no meio do bairro do Flamengo, onde nove mulheres choravam, estávamos seguras, porque estávamos juntas.

E os fogos de artifício estouravam lá fora, os fascistas na TV comemoravam vestindo a camisa com as cores do nosso país, roubando nossa paz, nossos tons e nossa democracia. Mas aqui, na nossa bolha, tínhamos a reconfortante certeza de que, independente do caos, seguiremos juntas, resistiremos juntas, existiremos juntas, prontas pro passado que vem a seguir.