O Setembro Amarelo chega ao seu fim hoje, mas isso não quer dizer que as reflexões a respeito dessa campanha e suas implicações devam acabar.

Uma Página Com O Intuito De Te Lembrar Todos Os Dias Que A Vida É Uma Merda [+449mil]

Página lixo que faz post lixo pra você lixo compartilhar [+262mil]

Todo mundo aqui é um lixo, ninguém vai te julgar. [+129mil]

Sad Memes [+199mil]

Memes depressivos para adolescentes com depressão [+206mil]

Memes intrigantes de Maioria Depressivos [+205mil]

Esses são apenas o nome de algumas páginas que fazem sucesso no Facebook e suas respectivas quantidades de curtidores. Os conteúdos variam pouco: em geral, são memes que fazem alusão pro quanto a vida é uma merda e viver não vale a pena. Como sou maior usuário do Facebook do que de outras redes sociais, o que analiso nesse texto é fruto de reflexões em cima dele e dos tweets que migram pra ele e todas as imagens aqui também foram retiradas ou da rede do tio Mark.

Ah, mas é só piada, é só meme! Não tem nada demais!”

De um tempo pra cá (bota aí de três a quatro anos) eu comecei a perceber o quanto a bad tem ganhado espaço nas timelines e, consequentemente, na vida das pessoas. Comecei, inclusive, a salvar várias delas (foram mais de 70 imagens reunidas em um ano) pra tentar refletir em sobre e pra fazer uma atividade com jovens em um tipo de “retiro” que participo nos carnavais. E foi isso: eu e uma amiga, Luiza Bohrer, elaboramos uma atividade que chamamos de “como parar de romantizar a bad” e a aplicamos com grupos de jovens onde poucos tinham mais de 20 anos.

Depois de mostra-las aos jovens, conversamos sobre a bad. No fim das contas, ouvimos de tudo: de jovens que disseram serem felizes o tempo inteiro a jovens que já tentaram se mutilar de alguma maneira (por razões que não cabem julgamento de valor), passando por jovens que já perderam amigos que viram no suicídio uma alternativa para o fim de dores e agonias.

A explicação pro nome da atividade: nessa nossa geração, a bad tem ganhado um perigoso e sutil espaço no humor, principalmente nas redes sociais. E fazer piadas com a bad acabou se tornando uma saída muito plausível e confortável pra quem está nela. O humor é uma excelente arma pra amenização de mensagens e para a romantização de ideias – e esse é o perigo do rolé. Vai do humor leve, cotidiano, que passa despercebido, a algumas ideias realmente mais pesadas e fortemente relacionadas à depressão e suicídio – o humor se tornou uma ferramente que mascara problemas muito maiores.

Veja só que curioso: uma porrada de página com o nome “alguma-coisa da depressão” (lembro que já tive a discussão com alguém sobre se originalmente era “da depressão” ou “dá depressão”); teve a época da febre das páginas “sinceras”, onde a sinceridade era associada a algumas “verdades” ditas com rispidez e que valorizam, quase sem exceção, a preguiça e a depreciação de alguém (ex: você mesmo). Por exemplo: a página Chapolin Sincero foi uma das primeiras páginas de humor a atingir 1 milhão de curtidas e que hoje tem quase 6 milhões, e sempre toca nessa ideia da preguiça, do pouco se importar com as coisas, da vontade de não fazer nada.

É importante dizer que não necessariamente as pessoas que criam essas imagens/memes o fazem por ser algo que viralizam, simplesmente. Às vezes elas mesmas estão passando por momentos complicados e acreditam naquela mensagem. E independente disso, é esse tipo de mensagem sendo compartilhada o tempo inteiro.

Você pode até discordar de mim de primeira, mas o humor por si só tem um poder bizarro de naturalizar as coisas; naturalizar no sentido de “tornar uma ideia socialmente verdadeira”. Seguem exemplos super comuns: judeu ganancioso, japonês de pau pequeno, padre pedófilo; loira burra, mulher submissa, negro/pobre ladrão e animalesco… tudo isso surgiu em algum momento como piada e acabou fincando raízes no imaginário social, como se tudo isso fosse verdade absoluta jurada juradinha.

E quando chega alguém que não tá com o melhor estado emocional e vê todas esses memes, a pessoa entende aquilo ali como verdade. Entende que aquilo ali realmente encaixa e define tanto ela quanto a vida dela. Vai assumindo tudo aquilo como verdade. E assumem, ainda, uma ideia de que além de não serem capazes de terem uma saúde mental sadia e de não terem uma “vida boa”, elas também não são merecedoras das coisas boas que a vida tem.

“É, eu sempre faço papel de trouxa

“É, nem adianta tentar pq eu não vou conseguir”

“Eu na vida” como legenda de qualquer imagem de dor e sofrimento.

“Queria estar morta”

A pessoa se afunda numa vibe niilista pseudcult sadboy sem nem perceber e acaba formando uma rede de pessoas que compartilham dos mesmos valores e crenças: desânimo, preguiça, baixa autoestima, hesitação e medo de assumir qualquer tipo de responsabilidade, inação, total desesperança na vida e uma certa perda da vontade de viver.

E o principal: ela não percebe porque, a princípio, “é só uma piada”. E aí entra numa frustração que não era pra existir, alimentada por algo que já saiu de controle faz um tempo.

Ah, mas Vítor, você não acha que isso pode aliviar a dor das pessoas? Aliás, você não acha que elas podem fazer uma rede de ajuda um pro outro?

Concordo com as duas coisas. Mas não é isso que acontece. Se fosse pra aliviar as pessoas, elas não continuariam postando as mesmas mensagens; se fosse pra rolar uma rede de ajuda, além as mesmas mensagens seriam compartilhadas por menos pessoas.

Eu não posso negar que de um ano pra cá eu notei uma considerável redução desse tipo de postagem. Mas agora eu vejo um deslocamento: as mensagens saíram das redes sociais e foram pras conversas inbox ou estão na vida real, nas mesas de bar e onde a vida não é tão exposta quanto nas redes sociais. O tom das conversas segue essa linha: baixa autoestima, pouco ou nenhum autocrédito, preguiça da vida (no sentido oposto de vontade de viver), autoculpabilização que paralisa as pessoas de enxergarem mudanças futuras (porque elas acham que vão ser a mesma pessoa pra sempre) e por esse caminho segue uma série de características cruéis e nocivas.

Veja bem, eu não tô querendo ser fiscal de nada. Você compartilha o que você quiser. Minha intenção aqui é tentar dar um estalo de que o buraco é mais embaixo. Que você pode cuidar mais dos outros e de você mesmo, e de uma maneira muito simples. Que por mais que me doa admitir (eu não gosto do livro)“tu te tornas eternamente responsável por aqui que cativas”, inclusive quando você cativa a si mesmo.

E que não existe problema algum em ser imperfeito. Ninguém é perfeito. E isso não significa que você é uma pessoa menor que as outras, e sim que você tá na mesma que todo mundo, mesmo que eles não queiram admitir. Talvez lhe falte só ser mais generoso consigo mesmo e enxergar o tanto de luz que tem dentro de você, o tanto de força que tá guardado pra superar qualquer bad da vida.

Minha intenção, no fim das contas, é te mostrar que existe uma grande diferença entre fazer graça das situações ruins da vida e fazer graça da própria capacidade de contornar uma situação ruim.

Está tudo bem. Vai passar.

Seja legal consigo mesmo. Você é grande.

 

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Sempre bom lembrar: caso você seja ou conheça alguém que esteja num momento emocionalmente instável, em depressão e com tendências suicidas, o número do CVV (Centro de Valorização da Vida) é 188. Não hesite em ligar ou indicar. Os atendentes são treinados para atender pessoas em momentos delicados.