Em época de eleição os debates costumam ficar muito mais acirrados. Um dos debates mais frequentes que eu tenho visto nas redes sociais é a respeito da Educação Sexual. O que mais me incomoda quando vejo as pessoas falando sobre isso é a maneira como esse debate EXTREMAMENTE importante está acontecendo: de um jeito completamente irresponsável e carregado de preconceitos e achismos baseados em ideologias conservadoras. Para deixar bem claro, essa contaminação do debate é um desserviço tanto à sociedade quanto à todas as possíveis vítimas de abuso sexual infantil.

Muita gente argumenta que a Educação Sexual é papel exclusivo da família ou até da igreja ou instituição religiosa frequentada pela família da criança. Isso aí, além de não ser argumento, também é uma fala absurdamente perigosa e você já vai entender porquê.

Quando se trava um debate tão importante quanto esses, os fatos e os dados devem prevalecer acima dos achismos, opiniões pessoais ou ideologias e religiões. Primeiro é importante lembrar que vivemos em um país onde crianças e adolescentes são 70% das vítimas de estupro e abuso sexual e, desses crimes, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima.

Sendo assim, as crianças brasileiras já estão, naturalmente, em uma posição de perigo e vulnerabilidade. Elas já são as maiores vítimas de abusos sexuais e isso é fato. Outro fato que devemos nos atentar é de que o abuso sexual de crianças é completamente diferente do abuso sexual de pessoas adultas, pois crianças não têm a mesma capacidade de discernimento que adultos possuem.

Uma criança não tem muita capacidade de entender, por exemplo, a diferença entre um toque não sexualizado de um toque sexualizado, a diferença entre um abraço e uma apalpada, a diferença entre um carinho sincero e um abuso. Por isso o papel da Educação Sexual é fundamental: para ajudar essas crianças a diferenciarem um toque de afeto de um toque abusivo.

Gostaria de atentar também para uma outra realidade que pode até parecer absurda, mas que infelizmente faz parte da nossa sociedade: o casamento infantil. De acordo com um levantamento feito pelo Banco Mundial e divulgado pela ONU News, o nosso país ocupa o QUARTO lugar no ranking global de casamento infantil e o primeiro na América Latina. Se nos propomos a discutir a Educação Sexual, é nossa obrigação falar sobre essa realidade.

Aqui no Brasil, se houver o consentimento dos pais, as meninas podem se casar a partir dos 16 anos de idade. Por conta de algumas brechas na lei, essa idade pode ser ainda menor caso a menina esteja grávida. Também não existe nenhuma lei prevendo a punição dos maiores que autorizem o casamento precoce. Os principais motivos para o casamento infantil no Brasil são gravidez na adolescência e desejo de segurança financeira.

Esse estudo também destaca que o casamento infantil é responsável por cerca de 30% da evasão escolar feminina no ensino secundário mundialmente, fazendo com que essas meninas estejam sujeitas a ter uma renda muito menor quando adultas, pois não tiveram a chance de terminar os estudos e se profissionalizar. O casamento infantil também coloca essas meninas em risco de sofrerem violência doméstica, estupro marital e mortalidade materna. A Educação Sexual chega aqui como uma maneira de informar essas meninas e ajudá-las a desenvolver uma autonomia sobre o próprio corpo e sobre a própria capacidade reprodutiva.

Outro dado assombroso que precisa entrar nesse debate é sobre a gravidez precoce: de acordo com um relatório da OMS, o Brasil possui uma média de gravidez precoce acima da média latino-americana e acima da média internacional também. A cada mil adolescentes brasileiras entre 15 e 19 anos, 68 ficam grávidas e se tornam mães.

O mesmo relatório também revela dados ainda mais assustadores: a América Latina é a única região do mundo com uma tendência crescente de gravidez entre adolescentes menores de 15 anos; a mortalidade materna é uma das principais causas da morte entre adolescentes e jovens de 15 a 24 anos no continente com o risco duplicado em regiões de baixa e média renda.

No relatório, a OMS faz sugestões para o combate da gravidez precoce. Será que você consegue adivinhar uma delas? Isso aí, a Educação Sexual para homens e mulheres. Eles ainda fazem outras sugestões como a expansão do acesso a métodos anticoncepcionais e a instauração de medidas que proíbam o casamento infantil e uniões precoces antes dos 18 anos, citados ali em cima.

Mais um dado alarmante que revela a urgência de um programa de Educação Sexual de qualidade para os jovens brasileiros: as DSTs não param de crescer no nosso país. Apesar da informação ser livre nas redes sociais, por exemplo, não existe uma abordagem educacional efetiva para a prevenção de DSTs, pois o assunto ainda é considerado um tabu na nossa sociedade. Novamente, essa é uma realidade que apenas a Educação Sexual poderia ajudar a reverter.

Outro absurdo que permeia o debate sobre a Educação Sexual são os achismos, completamente sem lógica ou fundamento, de que as crianças seriam “influenciadas” a se tornarem homossexuais ou transexuais a partir da educação sexual. Vocês têm noção do quão absurdo é falar uma coisa dessas? Primeiro porque não existe isso de influenciar a sexualidade de alguém porque orientação sexual não é uma escolha. E outra, se fosse assim, não ia existir gay e lésbica nesse mundo, já que durante milhares de anos as únicas referências de amor romântico que ganhavam repercussão eram as de casais heterossexuais.

Enfim, finalizo esse post com algumas imagens súper didáticas dos personagens Pipo e Fifi, criados por Caroline Arcari e ilustrados por Isabela Santos: