Confesso que ultimamente andava preocupada e quase sem esperança, mas o fenômeno de união entre mulheres que eu vi acontecer nesses últimos dias trouxe de volta a esperança que parecia ter sumido. Por ter me emocionado tanto com essa movimentação é que resolvi escrever esse post para falar um pouco sobre o que eu vi e continuo vendo no grupo Mulheres Unidas Contra B*lsonaro, que já reúne quase dois milhões de participantes e mais de um milhão de novas solicitações.

A princípio, quando me adicionaram, pensei “tudo bem, um grupo feminista contra o fascista, justo”. Não sei como descrever minha surpresa ao reparar, depois ver as postagens e analisar com mais cuidado os perfis das mulheres naquele grupo, a enorme diversidade de mulheres se unindo em prol de uma causa comum. Eu realmente não esperava ver o que eu vi: mulheres de todas as classes sociais e idades, adeptas de todas as religiões, eleitoras da mais diversa sorte de candidatos e dos mais diferentes lados do espectro político, mulheres que trabalham fora, mulheres que trabalham em casa, mães, avós, filhas, netas, irmãs.

Eu ainda estou impactada escrevendo esse texto, eu ainda não consigo acreditar nesse movimento que eu estou vendo acontecer. Nos meus poucos alguns anos de militância feminista, eu arrisco dizer que nunca havia presenciado uma união tão grande entre mulheres de perfis tão DIFERENTES em prol de um ÚNICO objetivo em comum: impedir a ascensão de um candidato fascista ao poder do nosso país.

Reparar na diversidade de mulheres que integram esse grupo me deu uma motivação que eu precisava, pois o parâmetro que eu tinha de comparação contra os eleitores do dito cujo eram, até então, mulheres do meu círculo social. Eu sempre soube que eu vivo dentro de uma bolha, todas as minhas amigas são contra esse candidato e eu nunca precisei ver muita gente fazendo campanha pra ele nas minhas redes sociais (salvo raras exceções). É absolutamente fantástico ver que não são apenas as mulheres que compartilham 100% dos meus ideais que se opõem a um candidato de tão baixo nível.

Dentro desse grupo existem mulheres eleitoras da Marina, do Haddad, do Ciro, do Amoêdo, do Alckimin, bem como mulheres que não se identificam com nenhum deles e representam uma parcela do eleitorado ainda indeciso. A única certeza em comum entre todas essas mulheres tão diferentes é a recusa em aceitar como presidente um homem que inferioriza suas iguais e aposta nos discursos de ódio e frases prontas pra tentar conquistar o eleitorado.

Além do foco principal do grupo, que é o combate ao candidato fascista, outra coisa maravilhosa que vejo acontecendo é o fenômeno da auto-descoberta. Muitas mulheres postaram relatos no grupo falando sobre como são reprimidas dentro de casa pela própria família por se recusarem a votar nesse candidato, outros relatos também denunciavam chefes/patrões que demandavam que essas mulheres não postassem nada em suas redes sociais contra o mesmo candidato. Enfim, essas mulheres, silenciadas por tanto tempo, descobriram ali um espaço seguro para debater política.

Por muito tempo nos fizeram acreditar que lugar da mulher não é na política, e por muito tempo, de fato, acreditamos nessa narrativa. Nesse grupo, vi mulheres descobrindo o próprio poder político, o poder de que vem da auto-organização e da união de forças. Muitas mulheres postam diariamente mensagens de agradecimento ao grupo e à todas as outras mulheres envolvidas por demonstrarem que sim, somos fortes, somos uma boa parcela da população e do eleitorado e que não, não vamos nos calar diante da misoginia de um candidato completamente despreparado para governar um país tão diverso e plural.

Essas mulheres estão ali porque sabem que a nossa existência, que já é ameaçada diariamente pela violência de gênero que assola o Brasil, ficaria ainda mais ameaçada caso esse candidato específico assuma o poder. Elas também estão ali porque, ao entender essa ameaça às suas próprias vidas, entendem também a ameaça às vidas de TODAS as mulheres, incluindo as eleitoras desse candidato, e de outras minorias. O nome disso é consciência de classe e empatia, coisas que andam faltando muito nos brasileiros.

Se engana quem acha que o debate político nesse grupo se resume apenas à presidência: essas mulheres estão diariamente debatendo a respeito das candidatas e candidatos aos governos dos estados, bem como ao senado e câmara de deputados. São debates políticos acontecendo a todo minuto entre mulheres que, muitas vezes, divergem entre si, porém mantendo o respeito e civilidade em suas discussões.

Sinceramente, o movimento que eu estou vendo acontecer me deixa tão emocionada que arrisco dizer que, mesmo que o pior aconteça e calhemos de não vencer nas urnas, nossa maior vitória já foi conquistada. São mulheres do Brasil INTEIRO colocando de lado suas diferenças, quaisquer que sejam, apenas para barrar UM candidato que representa o retrocesso que não aceitamos, e isso é grande, isso é imenso.

Nós temos sim, medo de que um candidato retrógrado, ignorante e violento ascenda ao poder,  afinal, como poderíamos não ter? Mas quer saber? No final das contas, é ele quem deve ter mais medo. Nós vamos estar lá, nossa frente permanecerá unida e nossas vozes não serão caladas nunca mais. Obrigada a todas vocês que integram esse movimento e fazem cada uma de nós se sentir mais forte a cada minuto. A primavera chegou.