Passei boa parte da minha vida dizendo que eu não gostava de política. Assunto chato, difícil. Entendo nada. Quem tem função de quem qual partido quando tem votação essa lei ai é pra quê? Todo mundo é corrupto, não aguento ficar acompanhando. Por mais que eu pesquisasse minimamente meus candidatos na hora de votar, era pouco que eu sabia. Foi só mais tarde que eu entendi porque eu me achava no direito de não gostar de política.

Eu, branca, de família com posses, nunca precisei do atendimento público. Não dependo do Estado. Meu colégio era particular, minha faculdade também. Se meu ônibus não passar, eu posso pegar um taxi, um uber. Eu não necessito do poder público pra viver minha vida. A saúde pública está sucateada, a educação precária, o transporte quase folclórico, mas eu sobrevivo. Sou o 1% do Brasil que não se afeta tanto com o estado do país. Mas o resto todo vive outra realidade e sente diretamente os hematomas do Brasil.

É muito egoísta se abraçar na própria realidade e conforto ignorando a agonia em que vivem a maioria dos brasileiros. É fácil classificar política como área de interesse quando não se precisa dela. Basta um pouquinho de empatia pra ver o lado do outro e se juntar à luta. Procurar saber, votar com consciência, apoiar seus candidatos e outros não, mas entendendo que política em um país tão rico e tão saqueado é essencial.

Não podemos nos dar ao luxo de ignorar os problemas estruturais do Brasil, principalmente em tempos sombrios como os de agora. Precisamos, sim, de revolta perante certas condenações e na ausência de outras. Quando assassinam a quinta vereadora mais votada no Rio de Janeiro, negra, mulher, lésbica, cria da Maré, temos o dever de exigir justiça. E ter medo. Quando um dos nossos maiores patrimônios históricos, culturais e acadêmicos é abandonado e, por consequência, incendiado e destruído, nós temos o dever de cobrar o poder público.

Consulta aquela amiga super antenada, lê sites de notícias, cata a ficha dos políticos, se informe. E, depois de minimamente posicionado, discuta sim com aquele parente ignorante.  Aprendemos que “futebol, religião e política não se discutem”, mas temos que desaprender. É através da discussão que quebramos paradigmas e estouramos as bolhas alheias e até as nossas. Não há mais tempo a ser gasto com o discurso elitista que é esse de não gostar de política.