1. Eu

Você lembra daquele dia lá atrás, ainda no jardim, em que você brigou com o teu amigo por causa do lápis de cor?

Lembra da sua primeira nota 10? E do teu primeiro 0?

Da vez que chamaram seus pais no colégio porque você tava chegando muito atrasado, ou nem tava indo em alguns dias?

Lembra das vezes que seu time perdeu e você foi sacaneado pelos seus amigos que torciam pro time que ganhou?

Talvez você lembre daquela sua primeira paixonite infantil, essa dificilmente a gente esquece.

O professor careta, a professora legal e aquele que era super engraçado e tornava a Matemática menos chata e a Física mais interessante por causa das músicas pra gravar as fórmulas.

Passeio no colégio pr’aquele sítio afastado. Duas horas dentro do ônibus e quando ele passava pelo túnel e a turma inteira começava a gritar. No fim da viagem o motorista tava de parabéns porque foi e voltou e não matou ninguém.

O primeiro beijo e caramba, o que eu tô fazendo.

Jogar futebol no campo perto de casa com a galera da rua. Ou brincar de pique-esconde e se esconder entre os carros. Ou ficar na rua até tarde da noite batendo papo, contando história de terror, falando dos interesses e desinteresses amorosos.

O primeiro porre. O segundo também e, principalmente, aquele em que as coisas meio que saíram do controle e você teve que contar com a ajuda da tua amiga parceira – que você tinha que ajudar porque ela também estava bêbada.

Festas de 15 anos em que todo mundo se vestia super bem, esporte-fino, cabelo todo produzido, perfume importado, sapato tinindo. Blusa de botão ou vestido longo. Assinaturas no quadro que ficava perto da porta do salão; DJ tocando os maiores sucessos do Black Eyed Peas e da Rihanna. Deu meia-noite, descia a debutante e dançava com o príncipe – que se não era parente, os dois nem se falam mais hoje em dia. Fora os depoimentos das amigas, sempre incrivelmente constrangedores.

Mas o importante é que o topo é meu (que saudades do meu Orkut).

Cinema com a galera sempre terminava com o terror sendo tocado na praça de alimentação. Piquenique sempre terminava com todo mundo incrivelmente sujo e suado por causa do queimado ou de qualquer coisa que envolvesse longas pausas pra ir buscar a bola que foi longe demais.

A primeira vez, que foi um pouco constrangedora porque ninguém sabia o que tava fazendo, mas dava uma fingida que tava tudo ok, tudo legal, segue o baile.

Ninguém lembra da fómula de Bhaskara, ninguém lembra o que é um adjunto adverbial de… sei lá, também não lembro, mas todo mundo lembra com detalhes do dia em que o Felipe pagou mico na Lapa e do dia em que a Paula descobriu que gostava mais de ficar com meninas (na época esse tipo de coisa era novidade, eram tempos diferentes).

Papéis sendo jogados dos prédios nas passeatas de junho de 2013 em plena Av. Presidente Vargas. Muitos gritos, muita revolta, 25 centavos, Copa, Cabral, Dilma, gás de pimenta, passa vinagre no pano e cheira pra não passar mal, corre e entra nessa rua, não dá porque tem polícia do outro lado dela também, puta merda isso aqui virou campo de guerra.

Toda a tensão do vestibular. Colocar o quê no Sisu como primeira opção? será que consigo esse curso? Esse ano tá foda. Vou botar Terapia Ocupacional e ano que vem eu tento pra Medicina de novo.

Caramba, eu estou apaixonada por Terapia Ocupacionnal, essa é a minha vida, eu não vou sair daqui nunca mais.

Inclusive, mais pt nas chopadas.

Mais histórias pra contar.

Mais personagens.

Mais pessoas importantes.

Mais pessoas que perdem importância.

Aquele teu primeiro amigo do jardim já tem até filho. E a distância é tão grande que você descobriu isso sem querer.

Não tem mais tempo pra jogar futebol no campo perto de casa.

Não tem mais campo perto de casa, até. A especulação imobiliária falou mais alto. Tal como os boletos, as contas na cabeça pra ver se vale pegar mais uma, duas, cinco latinhas de cerveja no bar. Porque vida adulta é ver que as coisas não são o que parecem.

As coisas vão ganhando outro significado. Ou vão agregando significados. O que você é hoje é diferente do que você era há cinco, dois, um ano atrás. Cinco, dois, um dia atrás.

Em uma noite tudo pode mudar. Toda a sua vida. Tudo o que te construiu. Tudo o que fez com que você seja o que é hoje.

Você já se esqueceu do seu passado hoje?

Você já queimou o seu passado hoje?

 

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  1. Nós

Eu tô terminando a faculdade de Geografia. Rolam várias viagens nesse curso. Numa delas, em plena Copa de 2014, eu fui parar no Parque Nacional Serra da Capivara, que fica no sudeste do Piauí, Nordeste brasileiro, numa cidade chamada São Raimundo Nonato. Lá são mais de cem mil hectares protegidos pela Constituição, com os registros de pinturas rupestre mais antigos e o maior número de sítios arqueológicos do continente americano, além de vários registros do homem pré-histórico no semi-árido nordestino. Fauna, flora e formações geológicas surpreendentes e encantadoras. É um negócio absurdo de lindo e incrivelmente representativo.

 Fonte: Wikipedia

Na França tem o complexo de túneis de Lascaux. Mesmo rolé: pinturas rupestres de valor inestimável para a Ciência mundial, mas somando apenas algumas centenas de metros. Na verdade, só tem um túnel com pinturas originais; esse túnel não chega a 300 metros de extensão. Ele é fechado para visitação do público porque o gás carbônico liberado pela respiração dos turistas estava dissolvendo as pinturas

Daí eles cavaram outros túneis e recriaram as mesmas pinturas detalhadamente. Lascaux II, que fica a 200 metros do túnel original, é aberta a visitação organizada de pequenos grupos de turistas, num passeio que dura cerca de meia hora. Deu tão certo que o governo francês repetiu o procedimento em outro achado antropológico relevante nas cavernas de Chauvet.

Atualmente, a Serra da Capivara recebe 25 mil visitantes por ano. Lascaux recebia, em 2010, 270 mil turistas. Há um projeto de aeroporto internacional pra São Raimundo Nonato que está estagnado, com obras paradas. Os administradores do Parque já reclamam há anos da falta e insuficiência de investimentos do governo pro básico: manutenção e empregabilidade.

Veja bem, eu não estou aqui para fazer uma comparação superficial de “ah, olha só como os gringos investem, eles são bonzões e o brasileiro só esculacha”. Não, longe disso. Tem algo que vai mais fundo do que isso.

O nosso passado é a chave para entendermos porque somos o que somos hoje. E não compreender isso (ou se mostrar indiferente) significa renegar essa essência que nos é indissociável.

Fonte: AFP

O papel dos museus é fundamental nisso. Eles são ambientes de contato com coisas que são comumente sacralizadas: o saber, o conhecimento. É contato com a arte plástica, com o som; é o contato com o distante tanto no espaço quanto no tempo; é o contato com o outro, com a percepção de mundo única de cada artista. É o lugar que desperta a curiosidade. É o lugar que faz tocar na cabeça de um moleque de 10 anos uma campainha de Meu Deus, o que me falaram na escola realmente era verdade!.

O museólogo e militante das favelas Thainã Medeiros e o historiador Vitor Almeida, administrador da página Suburbano da Depressão, destacaram exatamente isso: a memória afetiva criada com o Museu Nacional a partir desse contato escolar, familiar, suburbana. “Não foi só uma perda para a História do Brasil; perdemos ali nossas histórias, a que acontece no cotidiano; perdemos o brilho nos olhos de nossas crianças ao ver aqueles fósseis e múmias”, diz o Vitor.

O Thainã falouLocal de festa de dias da criancas, tardes de sol, passeio com a galera da escola, shows! Aquele gramado foi construído, é resultado de obra paisagística característica da construção da antiga morada da família Imperial, ali também tem um pedaço da memória da cidade que continua preservada e viva, e vai continuar sendo utilizada pela favela neste final de semana.

Quando vemos virar cinzas um dos acervos naturais mais importantes do mundo e pesquisas de grande relevância para o futuro ciência brasileira como um todo, dentro de um contexto de legitimação política da precarização e do sucateamento da ciência e da educação de um país politicamente instável e com urgências sociais tão latentes… é tanta coisa, o contexto é tão complexo, que só dá pra concluir que tá tudo errado.

E não tenham dúvidas de que isso é um projeto de sociedade. Não achem que o descaso é pontual. É negligência, porque há coisas que simplesmente não importam dentro de um projeto de sociedade que está se fazendo valer desde quando o Museu foi inaugurado.

Há aquilo que se alinha com os interesses de quem manda e há o que pode ser descartado. Olhar para o passado nunca foi prioridade de nenhum governo federal e, como consequência, vemos uma sociedade que desconhece sua própria história e sua estrutura. Uma sociedade que basicamente reproduz ideias, ainda que elas oprimam parcelas significativas da população.

Ato na Cinelândia contra a redução de investimentos na Ciência e na Educação, 03/09/2018. Foto: Julia Feital (@juufeital)

Nesse jogo de interesses e privilégios, todo mundo perde. Perde quem não quer perder e até quem não se importa em perder. E o problema é justamente esse: são aqueles que não se importam em perder que ou se aproveitam disso, ou alimentam um sistema nocivo, cruel e engessado.

São tempos difíceis. A mão na massa e a cara na rua são as maiores armas que podemos utilizar nesse momento. Precisamos usá-las. Não podemos deixar nosso passado continuar queimando.