Eu não sei nem por onde começar, acho que a ficha ainda não caiu pra mim. Meu domingo passou lento e tranquilo até eu chegar em casa à noite com a notícia de que o Museu Nacional do Rio de Janeiro, instituição científica mais antiga do Brasil, estava sendo engolido pelas chamas de um incêndio arrasador. O Museu Nacional, que completa seu bicentenário esse ano e contava com um acervo de mais de 20 MILHÕES de itens históricos e científicos, nessa noite virou cinzas.

São duzentos anos de pesquisa e trabalho praticamente jogados no lixo pelas autoridades que, supostamente, deveriam zelar pelos patrimônios históricos e culturais do nosso país. Os cortes da verba do Museu Nacional já vinham sendo denunciados desde 2014, mas o descaso com o patrimônio público data de bem antes. Em 2004 (sim, dois mil e quatro) o Museu foi vistoriado pelo então secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, Wagner Victer. De acordo com Victer, foram encontradas diversas irregularidades no Museu, entre elas a situação precária das instalações elétricas com fios expostos e alas com infiltrações. O secretário ainda disse que o Museu corria risco de sofrer um incêndio… e não deu outra.

Ainda no ano de 2004, o então diretor do Museu Nacional, Sérgio Alex Azevedo, reconheceu a situação precária do lugar. Ele ainda disse que a crise do museu já durava 40 anos, agravada principalmente nas décadas de 1990 e 2000, pela demora na liberação de verbas para preservação. Desde 2004 era sabido que as instalações elétricas precisavam urgentemente de uma reforma e que a implantação de um sistema de combate a incêndio era de suma importância. Isso foi há 14 anos atrás. Nada foi feito.

Museu Nacional em chamas na noite de 2 de setembro de 2018. Foto: Leo Correa AP

Não vou entrar aqui no mérito do fracasso do Estado e das autoridades governamentais com o maior acervo e mais antigo museu do nosso país. É frustrante ver a que ponto chegamos e mais frustrante ainda ver a classe política usando essa tragédia pra um oportunismo barato e vergonhoso, jogando a batata quente pro colo um do outro, apontando dedos e, enquanto isso, ninguém se responsabiliza. Foram anos de abandono. Nenhum governo sai dessa tragédia sem carregar a culpa por esse crime. É a prova de que nossa sociedade falhou e de que nenhum dos representantes ou aspirantes a representantes entende, de fato, o que a perda do Museu Nacional representa.

Para entender melhor as consequências do incêndio que devastou o Museu Nacional do Rio de Janeiro, conversei com a estudante de museologia Bianca Ferreira. Com o maior e mais importante acervo de história natural da América Latina, o Museu Nacional possuía nove mil metros quadrados de exposições permanentes e temporárias, fora os cursos de pós-graduação, eventos, seminários, atividades para estudantes inclusive da rede pública, entre outras ações. Tudo isso foi perdido em menos de 6 horas.

De acordo com Bianca, a perda vai muito além do acervo material, em suas palavras “o Museu Nacional era um símbolo de acessibilidade e democratização dos museus, da integração da comunidade e de lazer social”. O maior e mais antigo museu do nosso país era localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, muitas vezes esquecida quando se fala da “cidade maravilhosa”, perto de estações de trem e metrô bem como pontos de ônibus onde passam linhas vindas da cidade toda. Por ser ainda uma instituição de ensino que oferecia cursos, palestras e seminários para estudantes da rede pública, o museu era um símbolo da democratização de espaços historicamente elitizados.

Além de ser um espaço democrático, Bianca também atentou para o fato de que, muitas vezes, o Museu Nacional representava o primeiro contato de crianças com uma instituição do tipo, devido à sua localização na Quinta da Boa Vista, que integra várias áreas de conhecimento: museu, parque, zoológico e jardim botânico.

Bianca me contou que o trabalho educativo do museu era muito bem desenvolvido, pois essa ligação com as escolas sempre foi trabalhada e era muito comum receberem visitas de turmas inteiras. A estudante de museologia me contou também que o museu era uma vitória em termos de fidelização do público, pois apesar de contar quase que só com exposições permanentes, continuava sendo revisitado. Seu acervo, muito diverso e múltiplo, sempre tinha coisas novas para se descobrir, pequenos detalhes que passavam desapercebidos em outras visitas e eram notados depois.

Ainda sobre as consequências do incêndio, Bianca atenta para a influência do acontecido nas políticas de repatriamento de acervos. Há muitos anos existe uma luta para repatriar objetos que foram roubados e levados para outros países que se recusam a devolver sob o argumento de que eles têm melhores condições de preservar os artefatos. Com a destruição do Museu Nacional, nossa falta de infraestrutura foi escancarada aos olhos do mundo, então essas políticas de repatriamento se tornam ainda mais difíceis – como negar a verdade depois desse episódio lamentável de descaso e descuido com o patrimônio histórico, cultural e científico mundial?

Digo mundial porque não foi apenas o Brasil que saiu perdendo. Dentro do acervo gigantesco do Museu Nacional se destacavam coleções de importância internacional, como a de paleontologia, a de arte indígena, a de arte egípcia, afrescos que sobreviveram a erupção do Vesúvio em Pompéia, enfim, uma perda de dimensões incalculáveis.

Afresco romano de Pompéia

E sabe qual é a pior parte nisso tudo? De acordo com a Bianca, a maioria dos museus do Rio de Janeiro se encontra em situação similar: totalmente sucateados. Museus com goteiras, infiltrações, instalações elétricas precárias e tudo aquilo que já cansamos de ver. Não é um caso isolado e corremos o risco de perder mais do nosso acervo histórico-cultural-científico por conta de anos e anos de governos irresponsáveis e ausentes, sem comprometimento com o nosso patrimônio.

Nesse mar de desesperança, perguntei pra Bianca quais ela acha que devem ser os primeiros passos em direção à recuperação do que for possível. De acordo com ela, o primeiro passo é reunir tudo que não foi consumido pelo fogo para entender a dimensão real dessa perda. Bianca disse que, infelizmente, não é algo que tenha exatamente uma possibilidade de recuperação. Em suas palavras “a estrutura pode até ser reconstruída, mas a perda maior é o acervo, pois o que foi consumido pelo fogo foi perdido de forma irremediável”. Sem contar o que resistiu, mas está sendo danificado pela água e pelo contato com o ar. Bianca disse que vai ser um processo muito longo – que deve demorar vários anos.

Nesse momento, não adianta mais lamentar o que foi perdido. É uma vergonha que tivemos que chegar a esse ponto para que nossas autoridades demonstrassem um mínimo de interesse – ainda que oportunista – no patrimônio histórico do nosso país. O que levamos disso além do gosto amargo de perder o maior acervo histórico-natural da América Latina? A noção de que precisamos agir rápido para evitar que o mesmo aconteça com outros museus e espaços de conhecimento do nosso país.

Esse não é o momento de pedir por privatizações e sim de cobrar nosso Estado omisso. Cobrar políticas públicas de investimento na cultura e a valorização real dessas instituições pelo seu papel na preservação da memória e distribuição de conhecimento. Não devemos esquecer do trabalho científico e social que os servidores e trabalhadores desses espaços desempenham diariamente, e que, apesar de todos os pesares, se mantiveram e ainda se mantêm firmes e fortes na luta pela preservação da nossa história e pela disseminação da cultura.

O biólogo Paulo Buckup arriscou a própria vida para tentar salvar parte do acervo do Museu Nacional. Foto: Estadão

Obrigada Bianca por ajudar a elucidar as consequências dessa tragédia e a todos aqueles que dedicaram suas vidas à conservação do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, bem como aos que arriscaram suas vidas ontem entrando no prédio em chamas para salvar o que fosse possível.