Adoro ver mulheres se amando, foto de biquíni no instagram, bunda de fora, celulites, estrias, cicatrizes, sardas. É lindo esse movimento de autoaceitação e amor próprio que me enche de orgulho das mulheres dessa nova geração que não se rendem à mil dietas restritivas ou cirurgias plásticas. Mulheres que batem de frente com todo tipo de preconceito e barreira que a sociedade impõe. Acho do caralho.

Acontece que recentemente eu tenho percebido uma certa apropriação desse discurso de auto aceitação por mulheres que, por faltar melhor definição, já são naturalmente aceitas. Vamos ao exemplo do dia:

Gente, essa mulher é maravilhosa. Ela é magra, gostosa, sexy, cabelos lisos, pele bronzeada. Inclusive, não é uma opinião exclusivamente minha. A Cleo é considerada sexy por muitas pessoas. Ai ela me coloca uma foto também linda, na qual ela está ótima, com um angulo que a valoriza, de calcinha rosa, uma foto posada, com boa luz e com a legenda:

“A gente precisa muito parar de romantizar a mulher perfeita. Essa sou eu após o banho, uso toalha na cabeça SIM! Fico caçando defeitos na cara SIM! Uso a roupa que der na telha SIM” E tá tudo bem, cada uma é perfeita do seu jeito”.

Sim, eu também acho que a gente precisa parar de romantizar a mulher perfeita. Mas essa foto é só o retrato dela, a tal idealizada. E assim, o problema da mulher idealizada nunca foi a toalha na cabeça ou os defeitinhos que ela procura na cara, isso é de boas, as pessoas aceitam. O problema dessa tal mulher é a magreza esperada, a beleza incrível, a sensualidade, a classe, a pose, tudo presente na foto. A “roupa que der na telha” pra mim, inclusive, não inclui uma calcinha rosa e uma blusinha colada branca. Tá mais pra uma camiseta GG do Pink Floyd com alguma mancha antiga e uma calcinha grandona e confortável.

A mulher perfeita que a gente romantiza é essa que sai do banho de maquiagem e pele impecável.

O problema de uma mulher que já é considerada perfeitamente dentro do padrão usar esse discurso é, além de banalizar o mesmo, reforçar a mesma ideia que o discurso veio pra quebrar. Se a Cleo Pires é a mulher não perfeita que sai assim do banho, tem esse corpo, é rica e famosa, quem somos todas nós? O resto das mulheres?

As que tem alguns quilinhos a mais porque a prioridade da vida delas não é o culto ao corpo? As que tem marcas de sol porque trabalham no sol todos os dias? As crespas e cacheadas, que saem do banho com a cabeleira bem bagunçada? As gordas? As que têm cicatrizes? As mulheres mais velhas? As mulheres que têm acne? Mulheres com sardas?

Eu não acho que o amor próprio de uma mulher linda desfavorece nossa luta, jamais. Mas eu penso que falta empatia pra entender que se amar, quando você não parece a Cleo Pires, nessa sociedade machista, racista e gordofóbica, é um ato revolucionário que as mulheres batalham todos os dias pra realizar. A gente tem que valorizar essas mulheres.

É muito mais fácil a autoaceitação quando o resto do mundo te aceita, Cleo. Mas e quando não? Quando você vai numa loja e não tem o seu tamanho? Quando você vai comprar uma base e não tem seu tom de pele? Quando você vê propagandas na televisão e você não se parece com nenhuma daquelas mulheres? Quando as mulheres falando em “parar de romantizar a mulher perfeita” são perfeitas?