Tenho pra mim que as redes sociais se tornaram algo que contribui pra nossa identidade de uma maneira muito mais subjetiva do que conseguimos notar. Pense um pouco na maneira como nos comunicávamos há pouco menos de dez anos atrás, antes do lançamento do filme A Rede Social (2010), e tente relacionar com o que somos e nos comunicamos hoje: o que importava era o subnick do MSN e invadir o perfil do bff no Orkut, atualizar o Flogão e repassar a corrente da Samara (que teria 14 anos – se estivesse viva) pelo e-mail. Hoje em dia, tudo mudou: a palavra “curtir” deixou de acompanhar apenas as palavras “uma baladinha” e tá cada vez mais comum; os 120 caracteres nos fizeram nos acostumar em repassar uma reportagem só por causa do título; as pessoas já não pedem mais o número do celular, e sim o zap.

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Tudo está diferente para o jovem brasileiro contemporâneo. Temos bandeiras a serem levantadas, temos as pressões sociais para o futuro profissional, os amores e dores ficam mais amargos e a transição para a vida adulta, num geral, se torna um bolo lindo, mas caro demais para ser comprado. E a banda caxiense Ventilador de Teto pegou muito bem as sensações dessa transição, embarcou num caminho de fuga e lançou o álbum “Debute”, que fala muito sobre a importância e a instabilidade da identidade do millenial carioca.

Curiosamente eles abrem o álbum com a música Foucault, nome do filósofo francês que tanto criticava a modernidade e falava dos instrumentos de controle social. Mas a banda meio que caga pra ele. “Eu nunca mais vou ler Foucault / eu li essa merda só por você” é só uma das frases do álbum que trazem a identidade individual como algo difícil de se definir sem a uma aprovação ou dependência do outro – seja ele quem for.

Nu e Hipster já haviam sido lançadas pela banda no EP “Desejo / Sufoco”, em 2017. A primeira é super música de transição de cenas de Malhação naqueles anos de Rafa, Cabeção, Miuki e companhia. É aquele rockzinho adolescente animado, com riff chiclete facilmente cantarolável e gostoso de ouvir. Já Hipster é a música que resume todo o conceito do álbum em seus três minutos de duração. O “eu queria ser como vocês” que se repete no refrão é o tom lamentoso e inseguro do eu-lírico de todo o álbum. Tem um mundo que está sendo descoberto por outras pessoas consideradas descoladas enquanto você deseja muito participar disso tudo enquanto vê as cenas pela tela do celular (isso e muito Black Mirror). Bate aquela sensação de que a vida não está sendo aproveitada e de insatisfação com quem se é pelo mesmo motivo.

Restaurante, uma das melhores faixas do álbum, é também uma das mais fáceis de se identificar. E não é nem pela escolha de ser o diferentão do rolé, mas sim por pegar um desvio numa direção diferente de estilo de vida, de consumo, algo que nem sempre segue padrões pré-estabelecidos. Esso é o questionado que vem na frase “você diz que as pessoas vivem por viver / eu digo que elas não têm opção”.

Depois tem Karina, que junto a Carmem e Marechal Hermes cumprem a função romântica do disco e ainda trazem um outro elemento muito forte que é a geografia (<3) sentimental da cidade. Karina e Marechal mesclam o amor pela mina e a paisagem urbana, como nos versos “quando o seu rosto / quando ele escurece / então ele tira a luz / das ruas de Marechal Hermes”, numa baladinha gostosa que tem até uns metais pra dar uma floreada bacana no som. Carmem é ainda mais platônica, trazendo uma declaração de amor distante pra alguém que o cara parece ter acabado de conhecer pelo Tinder (olha os tempos modernos aí de novo): “e só tem uma coisa que eu quero saber / antes que a gente tome as ruas da sua cidade / você realmente quer me ver?”.

Quando dá 5 horas da matina e tu tá pra voltar do rolé, o bonde todo cansado e você mora longe mas o teu xodó (ou crush, mas prefiro xodó) mora logo ali, automaticamente começa a tocar Dama Triste dos Bairros Baixos sem você nem saber. É batata. É o encontro de mundos, de realidades. É o choque de diferentes experiências de cidade. “Você sabe que a cidade é confusa / que de noite você não enxerga / e que até mesmo na Barra da Tijuca / algumas pessoas tem lepra”. É a confusão urbana carioca resumida em uma música simples e bem certeira.

Mesmo com tanta crise de identidade, repulsa a padrões e dificuldades de se aceitar, a primeira vez que a palavra “depressão” surge no álbum é na faixa Keanu Reeves. Num som bem cru e mais pegado pro lado do punk, basicamente com duas notas, a música meio nonsense foge de olhar pra dentro de si e se preocupa com a depressão do ator hollywoodiano: “espero que o Keanu não se perca”.

O álbum fecha com uma vibe de rebelde com causa na Valsa Nº 5. Ela reinvoca a frase “eu queria ser como você” e explora um lado de fuga brusca de tudo o que é imposto, de total ruptura com tudo o que é tradicional e conservador (“velhos amuletos, eles significam nada” ou ainda “Há pó nos jornais, cinzas nos prédios / E gente nova nas estradas / Se você não calçar suas botas / Vai acabar chegando atrasada”) e flerta, novamente, com a vontade de querer ser algo que não se é, mas ainda sem saber exatamente o que é esse algo. Uma constante preocupação com o “chegar atrasado”, com não saber ou viver ou conhecer tudo o que tá por aí porque está ocupado demais com coisas que não necessariamente são realmente importantes.

A ideia geral do álbum é essa: o jovem millenial carioca numa casca de noz. Os problemas, as paixões, os lugares, a insegurança com si mesmo e com o futuro e o ímpeto de ligar o foda-se pra tudo, mesmo sem saber qual vai ser.

Resta aqui torcer pra que o Ventilador de Teto não se perca.


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