Eu vou ser bem sincera: não entendo nada de futebol, não sei identificar um impedimento, não sei o que é um volante e muito menos um centro-avante, não sei o nome de todos os jogadores da nossa seleção e, basicamente, a única coisa que eu entendo quando vejo um jogo é quando a bola entra no gol. Apesar disso, eu amo acompanhar a Copa do Mundo e torcer pelo Brasil e por qualquer outra seleção que ganhe minha simpatia.

O que me fez acompanhar a Copa do Mundo desse ano com muita empolgação, além do desejo de comemorar o hexa, foi toda a aura de celebração entre diversas nações diferentes, que aliviou um pouco o clima tenso de conflito e hostilidade que vivemos mundialmente. Em meio a políticas pesadas de imigração e uma onda de racismo e xenofobia, a Copa do Mundo veio como um sopro de ar fresco que o mundo precisava. Essa Copa me mostrou como o futebol pode ir muito além do entretenimento e da paixão, durante essa Copa do Mundo o futebol se mostrou um verdadeiro instrumento de transformação.

Eu já queria escrever esse texto há um tempinho, porque a Copa, num geral, foi recheada de acontecimentos que transformaram esse mundial em algo muito além de um campeonato, a função da Copa do Mundo é muito maior do que apenas saciar o apetite dos apaixonados pelo esporte. No final, foi a viitória da França e sua carga simbólica que me deram o impulso final para escrever esse texto.

A final entre a França e a Croácia foi recheada dessa carga simbólica que falei ali em cima e vou provar porque. Primeiramente, rolou um protesto durante a partida, que foi promovido pelo grupo de punk rock feminista russo Pussy Riot, que já carrega um histórico de protestos políticos contra o estatuto das mulheres na Rússia e contra o presidente russo Vladimir Putin. Nesse protesto durante o jogo, quatro membros do grupo invadiram o campo vestidos de policiais e uma delas recebeu um high-five do jogador francês, Mbappé.

Depois, a França conquistou sua segunda Copa do Mundo com um time multiétnico, composto quase que por inteiro por imigrantes ou descendentes de imigrantes, é uma seleção com raízes em 17 países diferentes. Samuel Umtiti, que fez o gol da vitória, nasceu em Camarões; o goleiro Steve Mandanda nasceu na República Democrática do Congo; os pais de N’Golo Kante vieram do Mali; a revelação dessa Copa, o jogador Mbappé (de apenas 19 aninhos e que doou todo o dinheiro que recebeu pela Copa para uma instituição que oferece aulas de futebol gratuitas a crianças hospitalizadas e portadoras de deficiências) tem suas raízes na Argélia e em Camarões; Paul Pogba nasceu no subúrbio de Paris, mas é muçulmano e seus pais são da Guiné. Pogba fez história na comemoração do título ao ser fotografado junto com seus irmãos e sua mãe segurando a taça.

Além da vencedora França, outras duas seleções que chegaram às semifinais dessa Copa do Mundo contaram com o talento de imigrantes na sua composição, são elas as seleções da Alemanha e da Bélgica. A final também revelou o votado melhor jogador da copa, o croata Luka Modric, que foi refugiado de guerra quando criança e perdeu o avô, de quem herdou o nome, em um ataque. Modric fugiu com a família para um abrigo de refugiados, o Kolovare Hotel, onde ele começou a jogar futebol.

A seleção brasileira também carrega um simbolismo para essa Copa: 6 dos 11 titulares da nossa seleção foram criados apenas pelas mães, sem qualquer figura paterna presente, como Gabriel Jesus por exemplo. Gabriel Jesus (que na Copa passada pintava as ruas de onde morava de verde e amarelo) foi criado pela mãe na comunidade de Jardim Peri, em São Paulo. Casemiro também foi criado apenas pela mãe no bairro mais pobre de São José dos Campos. Taison, Paulinho, Miranda, e Cássio são outros que foram criados apenas pelas mães.

Eu acho relevante falar sobre o poder de transformação do futebol porque antes e durante a Copa eu vi muitas pessoas se manifestando contra o evento sob a justificativa de que é algo que serve a uma política de “pão e circo” para alienar as pessoas. Acho extremamente injusto classificarmos a Copa do Mundo baseando-nos apenas numa noção dicotômica de bem e mal. Durante essa Copa vimos, sim, muitas situações lamentáveis acontecendo, como a evidente homofobia que permeia a Rússia, o comportamento imaturo e ofensivo de brasileiros e outros homens com mulheres de outras nacionalidades, dentre outros acontecimentos.

Eu escolho, porém, focar em todos os aspectos positivos dessa Copa do Mundo, que apesar de ter acontecido em um país conhecido pela intolerância e pelo preconceito, mostrou em resultados práticos a importância de não subestimar o potencial de ninguém, independente de sua origem. Essa Copa também foi palco de manifestações políticas escancaradas, como no caso do protesto protagonizado por membros do Pussy Riot no jogo da final, bem como de manifestações disfarçadas, como no caso desses ativistas LGBT que formaram a bandeira com camisas de seleções.

É injusto jogar na Copa do Mundo, e nas pessoas que gostam de acompanhá-la e torcer, a responsabilidade pelas falhas do nosso sistema político-econômico-social. O futebol ainda representa a única verdadeira esperança de um futuro grandioso para muitas pessoas, como para o carioca Wallace Rocha de 12 anos, que improvisou com caneta uma camisa do ídolo, Philippe Coutinho, que depois presenteou Wallace com uma camisa oficial autografada.

O nosso futebol sempre foi representado por nomes que vieram da pobreza e marginalização, como por exemplo Pelé, que cresceu na pobreza e, como não tinha condições de comprar uma bola, jogava futebol com uma meia recheada com jornal; Garrincha, que veio de uma família de origem humilde com 15 irmãos, e Ronaldo Fenômeno, que não pôde treinar no Flamengo quando iniciante porque não tinha dinheiro para pagar a condução até o clube.

Desde as periferias do Brasil até os subúrbios franceses, dos refugiados da guerra pela independência da Croácia até os filhos de imigrantes africanos, essa Copa do Mundo teve como destaques muitos representantes das minorias esquecidas, violentadas, oprimidas, forçadas a abandonar seus lares e terras natais, para nos mostrar que o futebol é muito mais do que apenas um esporte, é um instrumento de transformação, seja ela política, social ou cultural. É um dos poucos lugares de prestígio que não escolhe suas estrelas pelo dinheiro ou posição social, e sim única e exclusivamente pelo talento e garra de cada jogador.

Que as coisas boas que vieram com essa Copa do Mundo possam ser lembradas acima das coisas ruins, que a vitória de uma seleção marcada pela diversidade étnica, social e cultural sirva de lição e dê forças ao combate da xenofobia e racismo, e que o futebol continue fazendo brilhar os olhos de todos os talentos esperando para serem encontrados nos cantinhos mais inesperados desse mundo.