Hoje vou falar sobre a volta da minha paixão esquecida pelas belas composições e voz da banda Florence + The Machine. Eu admito que fui reviver este lado sem muitas esperanças .Gostei muito do primeiro álbum, “Lungs”, de 2009, gostei menos do “Cerimonials”, de 2011, e nem ouvi o “How Big, How Blue, How Beautiful”, de 2015. Daí uma amiga (sempre os amigos) postou uma história no Instagram falando que tinha o álbum e eu, como disse, fui com ela ouvir sem esperanças de chegar até o final do álbum.

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Eu me amarro quando eu quebro a cara e me apaixono por um álbum que eu não botava fé e esse foi um desses casos.

Florence abre seu quarto disco, “High As Hope”, lançado no último 29 de junho, dia seguinte à celebração do Dia Internacional do Orgulho LGBT, com a música June, que fala do quanto é difícil às vezes segurar a onda quando algo grande e triste acontece. No caso dessa música, o evento grande e difícil para Florence foi acordar no dia 12 de junho de 2016 e ver as notícias sobre o assassinato em massa na boate LGBT Pulse, em Orlando, EUA. “In those heavy days in June / when love became an act of defiance” não são versos soltos por isso. Eles carregam um significado forte e que também dão o tom que se segue no restante desse maravilhoso álbum.

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June emenda com Hunger, outra belíssima faixa. Você lê a letra e lembra um pouco (muito) da Jout Jout falando da tal parte que me falta. A música fala sobre isso: reconhecer que existe algo que nos falta e de como às vezes pode ser doloroso e solitário esse processo de aceitação e busca. Em entrevista à rádio da BBC, ela disse se inspirar na nova juventude feminina (e feminista) que bota o pé firme contra certos padrões impostos, força que ela não tinha quando mais nova, quando as dores chegavam a ser físicas: “At seventeen, I started to starve myself /I thought that love was a kind of emptiness”, ela diz nos primeiros versos da música.

A vida é efêmera e Florence sabe e expressa isso muito bem em nostalgia pessoal South London Forever, quanto na última faixa do disco, No Choir. Na primeira, com um instrumental crescente e alegre, a cantora traz cenas de sua juventude que nunca saíram de sua mente que na época descobria tudo o que o mundo poderia oferecer. Na segunda, com sonoridade mais simples e pé no chão, Florence entende a solidão de quem ela tanto fala no álbum e a abraça como uma amiga. Nas duas, a sensação de que tudo pode mudar em um piscar de olhos e que viver o aqui e agora é o melhor que podemos fazer.

A quarta faixa, Big God, é arrebatadora. É a faixa do álbum em que Florence mais demonstra toda sua habilidade vocal. Ela vai alto, vai suave, brinca com a garganta e de repente você está estatelado no chão. A música é basicamente sobre a ansiedade de uma mensagem não respondida durante a noite e de como é difícil lidar com essa sensação, e por isso é tensa em todos as sonoridades possíveis. A atmosfera dela é pesada. Isso se manifesta de uma maneira bem gráfica no videoclipe, inspirado no quadro “O Vôo das Bruxas”, do espanhol Goya… mas bastante inspirado meeesmo, chega até a assustar um pouco. Veja só:

Simples nos instrumentos como Big God, mas menos sombria e mais leve, temos Sky Full of Songs logo em seguida. A canção é pontualmente bordada por harpas e violinos, tem um quê romântico e fala sobre a solidão do êxtase. Isso é profundo, né?

Grace é possivelmente a música mais bonita desse álbum. É uma homenagem de grande entrega amorosa. A Grace em questão é sua irmã mais nova, mas na relação estabelecida com Florence sempre Grace sempre foi a irmã mais velha: “And you, you were the one I treated the worst / Only because you loved me the most / We haven’t spoken in a long time / I think about it sometimes / I don’t know who I was back then / And I hope on hope /I would never treat anyone like that again”. Criadas numa família com dificuldades de falar e demonstrar sentimentos e carinho, a música caiu como uma bomba emocional para as duas. E uma curiosidade: a música foi co-composta com o artista Sampha, que também toca o piano na música. Ano passado, Sampha lançou o elogiado “Process”, onde há uma música chamada (No One Knows Me) Like The Piano, que também carrega a nostalgia de se ter um lugar seguro para si.

Mulheres fodas falam sobre mulheres fodas. Chegou pra mim, através da foda Gabi Garrido, a informação de que Patricia também foi escrito em homenagem para uma mulher foda: Patti Smith, um dos nomes mais influentes do rock norte-americano. Para Florence, Patti é a bússola, é o Norte; é uma inspiração única e alguém a quem ela sempre recorre nos momentos difíceis e assustadores da vida: “And are you afraid? ‘Cause I’m terrified / But you remind me that it’s such a wonderful thing to love”.

100 Years chega pra dar uma aula de como se orquestrar uma música no pop. Não que o resto do álbum não seja, mas esse é o ápice. De novo na crescente de South Londo Forever, mas agora com um ritmo mais forte, uma pegada mais intensa, de luta. Em June ela já tinha falado que 2016 foi um ano brabo e aqui ela volta no peso desse ano – todo mundo aqui lembra que foi brabo, né? E aqui ela meio que deixa seu legado: sempre vai ter uma luz em algum ponto, sempre haverá amor, sempre haverá aonde se segurar. “My heart bends and breaks so many, many times / And is born again with each sunrise”. Fora que ainda tem a participação especial do monstro Kamasi Washington em alguns metais.

Em The End of Love, Florence fala sobre lidar com o amor de uma maneira diferente. Costumo dizer que amadurecer é um processo que você percebe quando você passa por uma situação semelhante a algo que já lhe aconteceu, mas age de maneira diferente porque você aprendeu algo. Quando Florence diz “You tore the floorboards up / And let the river rush in / Not wash away, wash away”, é algo sobre isso, sobre renovar, limpar, e não simplesmente mudar do 8 pro 80. E isso é bonito e muito sutil.

O saldo é de um álbum genuinamente bonito. Aquelas belezas que você olha e fala “caramba, isso é bonito, né?”. É da essência da obra. Embora triste e pesado como um fardo em alguns momentos, é algo memorável. E é brilhante como é perfeito o casamento entre orquestra e pop – não é sempre que isso dá tão certo quanto nesse disco. Fora a entrega de Florence: ela expõe seu íntimo, dá pra ver as entranhas da alma dela. E é ótimo quando dá pra ver isso num artista.