Recentemente eu vi pela primeira vez o filme Tropa de Elite. Ele foi lançado em 2007 e contava uma história pelo ponto de vista do Capitão Nascimento. O filme se tornou praticamente um vírus: só se falava dele em todos os cantos, todos conheciam e às vezes até se identificavam com seus personagens e suas falas não se limitaram a serem apenas referências e se tornaram gírias, de fato. Foi algo grande e até hoje se sente um pouco o efeito de seu lançamento e da maneira como ele se permeou (ou reviveu) no discurso moral brasileiro.

Há pouco mais de um ano atrás, a internet entrou em polvorosa com o lançamento da série 13 Reasons Why. A polêmica série abordou, em sua primeira temporada, as motivações que levaram a adolescente Hannah Baker a cometer suicídio, passando por temas como bullying, estupro, abandono, depressão, solidão e vários outros infelizmente muito comuns entre jovens de hoje em dia. Aqui não quero discutir sobre a qualidade ou necessidade da série, mas sim fazer uma análise paralela muito livre entre ela e o filme brasileiro, tendo como objeto principal a questão da narrativa pelo prisma do personagem principal.

Eu parto do princípio de que quando você assiste uma obra, você tende a “torcer” pelo personagem principal. Fazemos isso com naturalidade quando assistimos os filmes principalmente porque na grande maioria das vezes o personagem principal é uma pessoa boa – e queremos nos ver como pessoas boas. Naturalmente buscamos pontos de identificação com esse personagem, o que facilita o processo de empatia. Estabelecida essa relação de empatia, compreendemos as motivações, os sentimentos, os pensamentos daquele personagem; em determinado momento da jornada do personagem, sem percebermos nós ficamos com a sensação de “é, eu entendo o que você está passando”.

Nesse momento o caminho já é sem volta: existe identificação, empatia e compreensão daquele personagem fictício. Reconhecemos seus defeitos (porque, de certa maneira, também são nossos, mas como somos pessoas boas tudo o que queremos é perdão e uma segunda chance), mas dificilmente reconhecemos os nossos erros ou percebemos uma maneira diferente de agir ou uma escolha diferente a se fazer. Nos colocamos como um agente passivo da narrativa.

Os dois personagens que eu trouxe para esse texto – Capitão Nascimento e Hannah Baker – são os principais de suas obras e acabam se inserindo nessa ideia. O fato de eles serem os narradores das histórias faz com que eles constantemente “conversem” conosco, nos convencendo de que aqueles meios vão justificar os fins.

O primeiro personagem veio num momento em que os movimentos sociais não tinham tanta força quanto hoje. Era um momento em que o programa Pânico na TV estava em seu auge, com elenco completo e aumentando sua audiência a cada novo domingo com suas piadas e quadros superficiais, invasivos e ofensivos. Quando surge o filme, que foi um dos fenômenos mais virais dos últimos tempos na cultura popular brasileira e numa época em que a única rede social que tinha força era o Orkut, vem à tona também o conservadorismo moral que antes vivia adormecido e em inércia – tivesse sido lançado hoje, sua repercussão certamente seria totalmente diferente.

Logo na primeira parte do filme, o Capitão fala que, no papel, BOPE e Polícia Militar eram a mesma coisa, estavam no mesmo patamar, mas que na prática era completamente diferente, demonstrando a maneira como se dá uma sobreposição da prática sobre a teoria burocrática. Mais a frente, o Capitão se vê entre as obrigações profissionais (onde o discurso do “inimigo bom é o inimigo morto” deveria ser respeitado e perpetuado) e sua relação com sua família em crescimento.

Seu discurso frio, invasivo e ofensivo (e, por que não, opressor) se manifestou em cenas de tortura contra favelados e de humilhação e pressão psicológica baseada em hierarquia militar com seus recrutas. No momento final do filme, ele deixa tudo ainda mais claro: fala que já havia conseguido alcançar a cabeça do recruta Mathias, e que ali ia alcançar seu coração – o filme termina simbolicamente com Mathias apontando uma escopeta para a câmera. E é esse mesmo discurso cartesiano punitivista que se percebe pela ala mais conservadora quando se discute políticas públicas e Direitos Humanos – associados à imagem de um suposto “herói mítico nacional”.

Quando falamos de Hannah Baker, por mais que sejam problemáticas em escalas completamente diferentes em relação ao personagem brasileiro, a relação entre personagem principal e espectador não se mostra muito diferente. Pelo contrário: torna-se até mais perigosa. Se em 2007 os movimentos sociais desconheciam a força das redes sociais e as informações não circulavam com tanta rapidez, em 2017 absolutamente tudo pode se tornar digital e viral. E vivemos num momento em que as discussões médicas e as preocupações em torno da ansiedade e a depressão (frequentemente chamadas de “mal do século”) são intensas, mas ainda encontram muita resistência fora do meio especializado.

Hannah era uma adolescente comum, com problemas que muitos jovens passam, que passou por traumas que muitos jovens (principalmente meninas) passaram em algum momento da vida e que enxergou numa medida extrema (o suicídio) uma saída possível. Quando um jovem emocionalmente/psicologicamente instável se identifica com os problemas e traumas de Hannah, a tendência é que ele compreenda e assimile a mesma saída como uma opção viável para ele também. (Quando lançado, em 1774, o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther causou uma onda de suicídios na Alemanha.)

Existe um problema em assistir 13 Reasons Why (a série mais comentada de 2017) ou Tropa de Elite (o filme nacional de maior sucesso de 2007 e sétima maior bilheteria nos cinemas brasileiros naquele ano) que é o seguinte: se você não assiste tomando distância, pode ser que você assimile as informações (as mensagens) de uma maneira torta.

Por serem os personagens principais, acabamos por aceitar suas motivações (não duvide de que há 10 anos atrás as motivações do Capitão Nascimento eram amplamente aceitas e hoje ainda se percebe muita gente no mesmo bonde) sem questioná-las. Por se tratar de personagens principais, acabamos por coloca-los num patamar em que críticas não lhes são atingíveis, ainda que eles sejam falhos enquanto pessoas. Os meios acabam justificando o fim, mesmo se as coisas pudessem ter sido conduzidas de outra maneira e eles não tenham enxergado isso.

Se faltou sensibilidade e responsabilidade por parte de criadores, roteiristas e diretores na hora de elaborar e finalizar as obras, acaba sendo necessário dobrar as doses dessas coisas ao se tornar espectador dos produtos, algo que não nos é comum. Foram produtos que viralizaram, viraram assunto de bar, textões, artigos, preocupação de vários órgãos. Viraram temas fundamentais de serem tratados em escolas e outros ambientes frequentados por jovens e adultos, mesmo que em épocas completamente diferentes. Justamente por isso, torna-se fundamental um acompanhamento e um zelo especial, para que alternativas e esclarecimentos sobre as histórias narradas sejam constantemente apresentados. Respeitar saberes, reconhecer limites e se abrir para ajuda alheia são apenas três possíveis passos (que não se anulam) para melhor compreender ambas as obras.

EM TEMPO: O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende por chat, e-mail, telefone (disque 188) e em endereços que você pode verificar no próprio site do órgão. Depois do lançamento da série, o número de atendimentos aumentou consideravelmente. Caso você esteja em um momento difícil ou conheça alguém com quadro de depressão, procure e/ou indique os serviços tanto do CVV quanto ajuda terapêutica profissional.