Sai alguma série nova do Netflix e sempre fica aquele furor, né? Galera falando que você tem que assistir, que é imperdível, aquela qualidade e tal. Algumas séries realmente portam essa qualidade toda logo de cara (Stranger Things é fenômeno de público e crítica, por exemplo), mas algumas não seguram tanto a onda ou demoram pra empolgar.

Uma das investidas que entram nesse segundo grupo foi Everything Sucks!, criada por Michael Mohan e Ben York Jones (que dá vida ao personagem Stargrove). A série começa no mais do mesmo: três amigos fora do padrão de masculinidade que são do Clube de Audiovisual (um normalzão que se apaixona por alguma menina, o nerd, um que só pensa em perder a virgindade e outro que sabe tanto de matemática quanto não sabe de interações sociais), os descolados do colégio (um popular casal do Clube de Teatro) e a menina que desperta interesse no normalzão. E tudo isso tendo os anos 90 como fundo – um apelo emocional da Netflix, algo bem parecido com o feito em Stranger Things e a pegada de anos 80.

Até aí tudo bem.

A graça tá no desenvolvimento disso tudo e aqui eu já abro um ALERTA para spoilers leves.

O primeiro episódio é quase que uma obra-prima. Os conflitos começam a se apresentar pro espectador que já começa a se coçar no sofá. O arco principal, formado por Luke O’Neil (brilhantemente interpretado por Jahi Di’Allo Winston, que baita ator que esse moleque é!) e Kate Messner (Peyton Kennedy), é realmente o fio da meada da série inteira. Ele se interessa por ela e debanda em fazer de tudo para conquista-la; ela começa a entrar em contato com sua insegurança e suas vontades e isso a desperta para um novo capítulo de sua vida – seu momento na cama de seu quarto, enquanto ela ouve “Don’t Look Back in Anger” do Oasis num discman, é o perfeito casamento entre música e cena.

Com o passar dos episódios, a série perde força por explorar pouco alguns personagens e, por isso, deixar um pouco a desejar. O gás volta mesmo na segunda metade da temporada. Um detalhe diferencial dessa série se mostra bastante interessante: a questão da parentalidade. A mãe de Luke, Sherryl (interpretada por Claudine Mboligikpelani Nako), e o pai de Kate, Ken (Patch Darragh), são pais solo e isso acaba sendo discutido na série – mesmo que não da maneira mais completa possível – e também serve pra que os dois se aproximem.

Até mesmo essa questão acaba sendo melhor abordada na maneira como os filhos a sentem: a necessidade da figura paterna por parte de Luke e a “estranheza” aparente de Kate são assuntos que sempre surgem no íntimo dos dois. Saber lidar com a ausência de uma figura parental acaba por se tornar algo extremamente conflituoso para um adolescente em formação e autodescoberta e nem sempre é fácil lidar com a sensação de se sentir um estranho no ninho.

Entre tudo isso tem amizades e relacionamentos se fragilizando, egos inflados, adolescentes tentando entender o que fazem da vida e todas as referências possíveis aos anos 90, mesmo que elas sirvam apenas de resgate nostálgico e não façam tanta parte da história quanto na produção do Demagorgon. Referências à internet discada, Tamagochi e fitas VHS (essa sim tem importância) estão distribuídas na série, mas o que realmente dá força a essa pegada noventista são as músicas.

Além de uma trilha sonora original muito bonita, que dá uma delicadeza incrível às cenas, as músicas escolhidas para resgatar os anos 90 são um caso à parte. Tem clássicos como Duran Duran, Tori Amos, Oasis, Ride, Ini Kazome (sim, você já ouviu essa música em algum lugar) e até uma discussão sobre o clássico “Ironic”, de Alanis Morissette.

Afinal, por que seria irônico chover no dia do casamento? Ou porque seria irônico um senhor de 90 anos ganhar na loteria e morrer no dia seguinte? Seria pelo mesmo motivo de finalmente conhecer uma garota legal e interessante e ela ter dúvidas quanto à sua sexualidade? Ou pelo mesmo motivo que faz viajantes hippies tirarem foto com a placa de entrada da cidade, mas nunca entrar nelas? Será que é irônico você se ver sem amigos justamente no momento em que você mais precisa deles?

Fica aí o questionamento.