Como se já não bastasse a campanha de dia dos namorados super passada e problemática que a Reserva lançou ontem (caso você ainda não tenha visto, pode ler o post que eu escrevi a respeito aqui) hoje, dia internacional contra a LGBTfobia, a rádio Jovem Pan me faz o desserviço de lançar uma campanha de EXTREMO mau gosto.

Pra quem ainda não viu, aqui vai um print dessa campanha divulgada no twitter e instagram da rádio:

Então, basicamente, a Jovem Pan lançou, no dia internacional de combate à LGBTfobia, uma campanha perguntando pra galera LGBT qual seria a última música que eles pediriam caso fossem, isso mesmo, ASSASSINADOS. Na boa, não sei se realmente foi uma tentativa muito frustrada de publicidade ou se foi apenas uma piada de mau gosto muito cruel. Eu sinceramente fiquei na dúvida, porque QUEM EM SÃ CONSCIÊNCIA acharia essa campanha uma boa ideia? Conseguiram superar o desastre da Reserva (que aliás deveria agradecer a Jovem Pan por superar a campanha de dia dos namorados e tirar um pouco os holofotes de cima deles).

Em um espaço de menos de dois dias a gente viu duas campanhas publicitárias completamente desastrosas, desrespeitosas, de extremo mau gosto e nem um pouco originais, e isso fez eu me questionar: isso tudo é resultado de quê? Do medo de evoluir? A Jovem Pan ainda não se pronunciou a respeito da campanha, seja respondendo as críticas ou fazendo uma postagem oficial. A Reserva fez uma postagem hoje informando que fariam uma “pausa” na campanha para reavaliar o direcionamento da mesma… isso depois de excluir alguns comentários com críticas negativas e responder outros com extrema ironia e deboche, tanto por parte da página oficial da marca quanto por parte do perfil pessoal do dono.

O que me espanta não é nem a falta de qualidade, o nível ofensivo e o teor de baixaria nisso tudo, não. Eu sinceramente não esperava muito mais da Reserva, por exemplo, que está sempre envolvida em algum escândalo de direitos autorais, machismo, racismo ou em alguma campanha problemática. O que me surpreende de verdade é a falta de visão dessas equipes de marketing e publicidade, dos donos dessas marcas que continuam insistindo no erro, que simplesmente se recusam a evoluir e acham que fazer a mesma coisa apelativa de sempre é ser original.

Eu sei que a posição da Reserva dificilmente vai mudar porque eles seguem o mantra do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim” (muito pobre de espírito e conformista na minha opinião, mas ok), porque o público alvo deles, os consumidores fiéis, não vão deixar de consumir por conta de mais uma campanha merda, afinal de contas se não deixaram de consumir até hoje, não vai ser agora que vão parar.

Mas vê bem, no auge da era digital, do engajamento online, quando você pode explorar e conquistar os mais diversos públicos, aprender e crescer, uma marca que não mira a evolução é uma marca que pode até manter o seu público alvo, mas que não vai conseguir se expandir pra além disso, não vai conquistar mais público. E isso é coisa de gente que pensa pequeno, isso de se recusar a evoluir, de ficar estagnado no que é ultrapassado. A Reserva pode até parecer grande, mas a cada dia (e campanha) que passa, ela se mostra cada vez menor.

Quanto à Jovem Pan, eu honestamente não sei nem o que dizer, sério. Me faltam palavras pra descrever o quão chocada eu fiquei quando vi a campanha que eles lançaram hoje, se apoiando em crime de ódio, em assassinato, a troco de nada. Não foi uma ideia boa, foi uma ideia horrível, não gerou engajamento positivo nenhum, apenas críticas negativas, e parece fazer escárnio da triste realidade da comunidade LGBT brasileira. Realidade na qual uma pessoa LGBT é morta por dia nesse país. Mais um exemplo de uma campanha extremamente mal pensada que gerou um mal estar que poderia ser facilmente evitado.

Novamente eu vou bater na tecla do engajamento online, porque você tem que ser MUITO BURRO pra não saber como tirar proveito do que esse engajamento oferece. São feedbacks gratuitos do público consumidor que deveriam ser levados a sério ou pelo menos considerados. A comunicação de uma marca vai muito além de criar uma campanha “engraçadinha” pra postar nas redes. Existe a necessidade de fazer uma pesquisa, de enxergar a contextualização, seja social, seja histórica, seja política, seja o que for, pra promover uma campanha. Se você é um profissional da área de publicidade e marketing e acha que não tem problema ignorar os debates que estão na boca do povo, seja dentro ou fora da internet, então, na boa, volta pra faculdade porque você não aprendeu nada.

Em pleno 2018 a gente simplesmente não quer mais esse tipo de lixo, a gente não aceita mais campanha merda que debocha da nossa inteligência. Hoje em dia é extremamente fácil se informar pra realizar boas campanhas e evitar cair nesses erros antigos, não tem desculpa, tem que se reinventar, tem que crescer, tem que evoluir. Eu sei que o público evoluiu, mas parece que algumas marcas ainda não enxergaram isso.