Volta e meia eu tô batendo papo sobre música com alguém e acabo caindo no ponto de que eu gosto de música eletrônica. Como resposta, a pessoa diz que não gosta, muitas vezes dizendo que não gosta do tuntz-tuntz presente nas músicas desse gênero, lembrando de nomes como David Guetta, Alok e outros artistas do techno, dance music. Daí eu começo a falar que música eletrônica não é só isso, que tem muitos sub-gêneros interessantíssimos e até relaxantes que vão muito além da batida, da dança, da fritação de rave etc.

Escrevo esse post com a intenção de facilitar a minha vida nessas conversas, mas principalmente de desmistificar essa concepção de que música eletrônica é tudo igual. Vou falar de alguns sub-gêneros, indicar alguns artistas e tentar explodir a sua cabeça – da mesma maneira que a minha explodiu quando eu abri essa porta da internet.

Nu-Jazz

Dá pra resumir o nu-jazz como uma fusão entre a música eletrônica com o jazz e com o soul, o que dá uma liberdade criativa pros artistas (geralmente voltados pras músicas instrumentais, mas certamente com algumas exceções) arregaçarem com solos sensacionais de instrumentos de sopro, baixos/contrabaixos, pianos e outros instrumentos que são mais facilmente associados ao jazz e ainda inserir alguns sons eletrônicos em looping e samplers.

Da mesma maneira que tem artistas que focam no instrumental (caso de bandas como Metropolitan Jazz Afair, Nuspirit Helsinki e Llorca), há quem pegue um rumo diferente e introduza uns vocais bem legais (Belleruche, Micatone e Jazzanova). Lembrando que a banda Portico Quartet entrou na lista de melhores álbuns de 2017, então vale dar uma olhada lá de novo.

Trip-hop

Aqui a galera faz música eletrônica com influência da sonoridade do hip-hop. Foi um dos sub-gêneros mais relevantes do cenário eletrônico underground inglês dos anos 80 e 90, principalmente por terem sido os pioneiros na empreitada de reduzir o tempo das batidas – ou seja, aumentar o tempo entre um tuntz e outro. Essa redução dá um ar misterioso e sensual à grande maioria das músicas, o que facilita a viagem do ouvinte.

Certamente a banda mais expressiva dentro desse sub-gênero é o Massive Attack. Foram 7 álbuns lançados, bem recebidos por público e crítica, com diversas participações especiais. Você com certeza já ouviu os caras pelo menos na abertura da série House, onde toca a música “Teardrop”. Mas outras bandas ajudaram a consolidar o trip-hop: Hooverphonics, Portishead, UNKLE e Moloko são só alguns desses nomes. Aliás, Portishead tem essa performance da clássica “Glory Box” que volta e meia ressurge nas timelines.

 

Chillout / Lounge

É a famosa “música de elevador”. Música que preenche espaços vazios, mas que te faz relaxar. Música que você bota pra tocar enquanto conversa com a galera numa social em casa, ou bota como fundo enquanto estuda ou lava a louça, sei lá. É a trilha sonora perfeita pra todos os momentos que você não sabe que precisam de trilha sonora.

Daí você foca nos artistas instrumentais: Nightmares on Wax, Sven van Hees, Zero 7, a dupla francesa AIR (que compôs a trilha sonora pro filme “As Virgens Suicidas”), Kruder & Dorffmeister, Dzihan & Kamien… É uma galera que faz um trabalho sério totalmente dedicado a te fazer voltar ao eixo emocional. São basicamente alguns pré-requisitos pra se alcançar a paz mundial.

Chill-hop

O chill-hop é o encontro do chillout com as batidas do hip-hop. Vejam bem, não é a mesma coisa que trip-hop: o chill-hop foca muito na repetição, com poucas alterações e poucos vocais, sendo assim uma intersecção entre o trip-hop e o chillout. Tem vários canais no YouTube que ficaram super famosos por fazerem transmissão 24h desse estilo estampando algumas imagens de personagens de anime concentrados ou relaxando.

O incansável Freddie Joachim não é dos mais famosos, mas é um dos melhores no ramo. Suas músicas rápidas não te deixam cansar e fazem você querer mais e mais. O cara faz sobreposições de sons incríveis e apaixonantes. E o Vanilla não fica pra trás: pouco sucesso, mas puro talento distribuído pelos seus 8 álbuns – destaque para o Origin (2015), que sampleia até Nana Caymmi. Admito que é um dos mais difíceis de escolher uma música pra botar aqui, a vida é feita de escolhas:

House / deep house

Nem ia falar da house music porque ela já ditou muito o que foi a música eletrônica, principalmente nos anos 80 aos início dos anos 2000, até se confundindo um pouco com o techno. Mas é justamente por essa época que vale a pena ser saudosista: Daft Punk, FatBoy Slim, Layo & Bushwacka! foram nomes fundamentais pra embasar a música eletrônica século 21 adentro. Antes deles, as longas músicas do libertador Frankie Knuckles, a banda Technotronic, a voz potente de Crystal Waters e outros artistas criaram diversas cenas eletrônicas ao redor do mundo.

A francesa gerou, além do Daft Punk, nomes como Cassius e Modjo (donos da clássica “Lady (Hear Me Tonight)”); de Nova York saíram Todd Edwards e Romanthony; de Chicago saíram Roy Davis Jr e Felix da Housecat. O importante era realmente fazer dançar, mas ainda de um maneira muito menos comercial e barulhenta do que hoje. Era um som puro como esse verdadeiro HINO do Mr. Fingers (“in the beggining there was Jack!”):

Downtempo

É um dos sub-gêneros mais famosos da música eletrônica e não foi à toa que escolhi pra fechar esse post. Quando a galera do trip-hop aumentou o espaço entre as batidas, um novo caminho foi aberto pra explorar cada vez mais esse espaço. Os artistas de downtempo foram alguns dos que melhor fizeram esse trabalho, encontrando o equilíbrio perfeito entre a música eletrônica e vários outros instrumentos.

Quem melhor se saiu nisso e se tornou o principal nome do estilo foi o Bonobo, de quem eu já falei antes aqui. Mas tem uma galera que o mundo também precisa conhecer: a banda americana Tycho, os italianos do The Dining Rooms, o inglês Catching Flies e o australiano e já famosinho Chet Faker (a.k.a. Nick Murphy). Essa música maravilhosa que segue é dos ingleses do Vondelpark.

Curtiu? Expandiu seus horizontes? Seu cérebro está espalhado pelo quarto?

Essa era a minha intenção. Nos vemos no proximo post com mais músicas e novos estilos!