Na época em que a banda larga ainda não estava popularizada e você tinha que esperar dar 15h de sábado pra poder entrar na internet e dar uma olhada nos scraps do Orkut, baixar músicas era uma vida difícil. Nem sempre o eMule ajudava, volta e meia vinha vírus e a tua paciência era testada com frequência. Daí as coisas começaram a ficar mais acessíveis. A banda larga chegou e aí a primeira coisa que eu fiz (sem exagero algum) foi baixar um CD de um tal de Simon Green, que usa o nome artístico Bonobo.

Com sete álbuns e alguns EPs e remixes lançados em sua carreira, Bonobo se destaca hoje como um dos principais nomes do downtempo, sub-gênero da música eletrônica que explora e preenche o tempo reduzido das músicas de uma maneira mais sensível ao ouvinte. E hoje eu vou tentar falar sobre a obra dele aqui sem me prolongar muito.

É muito legal porque o trabalho do cara é muito bom desde o início e ainda assim melhora a cada novo lançamento. Traz mais novidades, mais influências, mais sons e mais camadas – há uma entrevista em que ele diz que ele se preocupa mais em ver com os sons interagem em si e como soa essa justaposição.

Por isso você pega os dois primeiros álbuns (Animal Magic, de 2000, e Dial “M” for Monkey, de 2003), você se vê curioso pra entender como e porquê aquilo é tão cativante. São dois álbuns com foco quase que completo nas habilidades instrumentais do artista, com samples e arranjos simples, mas que se juntam e encorporam a música de uma maneira mística. Provas disso são a suave “Sleepy Seven” e a misteriosa “Change Down”.

Em 2006, Bonobo deu um passo do qual jamais se arrependeria: convidou artistas para cantar em algumas das músicas e rumou pro futuro no excelente Days to Come (esse foi o álbum que eu falei lá em cima, no começo do texto). Chamou Fink, companheiro de selo na ótima Ninja Tune, e Bajka, artista indiana, criada em Portugal e na África do Sul e então residente na Alemanha (daí você imagina o quanto os dois não trocaram de música e o quanto isso num refletiu no som). O disco é completo e lindo do início ao fim, com várias viradas e climas maravilhosos, tanto nas músicas vocalizadas (cinco no total) quanto nas instrumentais. Como era um momento de transição, a edição definitiva do álbum é dupla – o segundo tem as músicas que tiveram participação sem o vocal, totalmente instrumentais.

Em 2010 veio o Black Sands. Simon convidou desta vez a cantora Adreya Triana pra cantar em três de suas doze maravilhosas músicas. Ousando ainda mais nas composições e nas ideias, a sonoridade vem mais urbana, mais ampla: da mesma maneira que temos a relaxante “Stay The Same”, que conta um solo de saxofone que anestesia de tão lindo, dá pra empolgar fácil com “El Toro” e “All in Forms” e “Animals”, e pra se emocionar com “Black Sands” – já falei dessa música aqui no blog, inclusive.

Em abril de 2013 veio o The North Borders. É praticamente a obra prima de Simon. É uma experiência musical quase sólida de tão encantadora. É onde Simon conseguiu explorar de maneira mais efetiva os tempos de cada música. “Emkay” é quase que um pré-requisito pra paz mundial; “Cirrus”, “Jets” e “Ten Tigers” parecem saber como ninguém o caminho pra dominar o seu corpo. Fora as participações de Sjerdene,  da maravilhosa Erikah Badu, Grey Reverend e Cornelia, que são algumas das melhores colaborações com Bonobo.

Não vou me estender muito falando do último lançamento (Migration, 2017) dele pois o álbum tá na lista de fim de ano do blog, com alguns dos melhores álbuns de 2017 que você provavelmente não ouviu. Mas pra você sentir a pressão: foi indicado ao Grammy de Melhor Álbum de Música Eletrônica e a faixa “Bambro Koyo Ganda” foi indicada a Melhor Gravação de Música Eletrônica – feita em colaboração com o coletivo marroquino Innov Gnawa, que explora a música marroquina no coração de Nova York. Não é pouca coisa, certo?

Em março o cara esteve aqui no Rio pela primeira vez com seu bandset e gerou uma catarse absurda no palco do Circo Voador. Um show intenso, com luzes incríveis, uma vibe entorpecente e uma setlist que chegou a brincar com os sentimentos desse fã que vos escreve. Veio ainda acompanhado da cantora e parceira musical Sjerdene, dona de uma simpatia enorme (rolou um breve bate papo com ela, onde eu estava eufórico e nervoso o suficiente pra não conseguir controlar minhas emoções). Eu por mim tinha um show do Bonobo a cada final de semana por aqui.