Segura que o post vai ser longo: depois de um árduo trabalho pra selecionar artistas e o álbum dessas artistas, venho com essa lista de álbuns incríveis ou que são sonoramente legais ou têm alguma relevância social ou artística pro mundo da música, de mulheres ou bandas com frontwoman brasileiras, gringas, negras, brancas, empoderadoras. Tem coisa demais que não se pode deixar a vida acontecer sem conhecer.

Já adianto que não estou satisfeito com o número de álbuns que tô indicando aqui  (muitos ficaram de fora), então pretendo complementar esse post muito em breve. Mas vamos à primeira parte:

Yeah Yeah Yeahs! – Fever To Tell  (2003)

Karen O é a frontwoman da banda Americana Yeah Yeah Yeahs. Formada em 2001, a banda lançou dois EPs antes de debutar com Fever To Tell, em 2003. São 11 músicas com guitarras tão distorcidas que o cérebro quase derrete. As performances de Karen dão a impressão de que Karen pouco se esforça e muito se diverte em cada um dos versos.

Pra além da banda porradeira, Karen O fez relativo sucesso no cinema, ainda que no nicho musical. A música “All Is Love”, do filme Onde Vivem os Monstros, foi indicada ao Critic’s Choice Movie Awards na categoria de Melhor Música, em 2010. Quatro anos depois “Moon Song”, do filme Ela, foi indicado ao Oscar também na categoria de Melhor Música. Ambos os filmes foram dirigidos por Spike Jonze, seu ex-companheiro.

Astrud Gilberto – The Astrud Gilberto Album (1965)

A voz da Astrud Gilberto mora no meu coração na rua das vozes mais bonitas que eu já ouvi. É de uma suavidade assustadora, dá vontade de se embrulhar nela e assim ficar pra sempre. Pegou de sua mãe a paixão pela música, mas sua timidez não a deixou explorar essa parte de sua vida tão intensamente – descobriu mais tarde que sofria de medo de palco. Foi amiga de infância da cantora Nara Leão; gravou com Tom Jobim e Stan Getz – é a voz feminina do clássico “The Girl from Ipanema”.

A baiana, que hoje mora na Filadélfia, nos deixou algumas dezenas de álbuns e EPs (que eu ainda tô longe de conhecer por completo), mas deixo aqui The Astrud Gilberto Album, que dá mais ou menos uma noção do quanto sua voz ajudou a moldar a leveza da bossa nova – é inevitável: você ouve qualquer música dela e automaticamente você é transportado pra alguma nova do Manoel Carlos. O álbum tem clássicos como “Água de Beber”, “Once I Loved”, “How Insensitive” e “Dindi”.

Joanna Newsom – The Milk-Eyed Mender (2004)

Eu fiquei super empolgado quando li um “Cariocando Nas Ruas” com a Júlia, que indicou pra vocês a Joanna Newsom. Daí desde então eu tô no aguardo pra falar um pouco da artista incrível que é essa pianista, harpista, cantora e compositora americana de 36 anos.

The Milk-Eyed Mender foi lançado em 2004. É o produto do amadurecimento musical de Joanna e mostra um dos trabalhos simples da artista (é, na maior parte do tempo, voz e harpa) e um dos mais bonitos da década. Letras inspiradíssimas e carregadas de conceitos e significados ganham vida com a voz peculiar da moça: “Sadie” fala sobre a morte de sua cachorra e de uma amiga próxima; “Bridges and Ballons” fala sobre fantasias e imaginativas mentes infantis, conjurando até elementos das Crônicas de Nárnia; “En Gallop” bota a realidade e o romantismo em colisão que deixa a gente sem saber o que dizer, só o que sentir. É tudo complexo e profundo e o álbum se torna imperdível.

Jovelina Pérola Negra – Luz do Repente (1987)

“Eu sou partideira da pele mais negra

Que venho, que chego para improvisar

Já vi partideiro que nunca vacila

Entrando na fila, querendo versar

Mas dou um aviso que meu improviso

É sério, é ciso, não é de brincar

Otário com aço, eu mando pro espaço

Versando, eu faço o bicho pegar”

Essa parte da letra de “Luz do Repente”, que também dá nome ao álbum de 1987 da cantora carioca, é Jovelina batendo o pé da mulher no mundo do samba e do pagode – gêneros com pouca presença feminina ainda hoje, em dias de tantas mudanças até mesmo no mundo do funk.

Nasceu em Botafogo, mas é cria da Baixada e do Subúrbio cariocas. Ganhou o apelido “Pérola Negra” de seu amigo Dejalmir, em homenagem à cor de pele reluzente e retinta de Jovelina. Passou de tiete de Bezerra da Silva a nome garantido nas rodas de samba da Império Serrano, onde era presença garantida na ala das baianas nos desfiles de carnaval. Estreou na música já com 40 anos e nos deixou com 54. Nesse meio tempo nos deixou 6 discos. Em Luz do Repente, assuntos classicamente suburbanos como o pagamento fiado no bar, o forrogode, o “Banho de Felicidade” que se toma quando se chega num pagode da cidade e até da fé nordestina presente na “Feira de São Cristóvão”. Jovelina brincava!

Tracy Chapman – Tracy Chapman (1989)

Entre Nina Simone e Beyoncé, diversas outras mulheres negras usaram do talento e da voz para defende causas sociais. Uma delas foi Tracy Chapman, que lanço o álbum homônimo em 1988 – seu primeiro álbum. Um álbum que além de empoderar as mulheres, denuncia preconceitos, violência doméstica contra a mulher e o feminicídio. Em “Talkin’ Bout a Revolution” ela conjura a força coletiva do povo marginalizado; em “Behind The Wall”, relata um caso de mal trato à mulher que nos deixa tão congelados quanto ela diz ter ficado no momento do ocorrido; “For My Lover” pode perfeitamente ser entendida como uma música que fala sobre como ela sentia que era vista pela sociedade dentro de um relacionamento homoafetivo – por mais reclusa que seja, já foram dois relacionamentos assumidos publicamente.

É um álbum forte, dolorido e importante, que certamente merece um post só pra ele aqui no blog. Ele conta também com seu maior sucesso. A música “Fast Car” a alçou num sucesso tão grande que ela levou 4 Grammys pra casa em 1989. Ela ainda cantou a música num evento de caridade que fez tributo aos 70 anos de Nelson Mandela. Pouca moral, né?

Nana Caymmi – Nana Caymmi (1975)

Que voz! Que mulher! Já notaram que a Nana não se esforça quase nada pra que a voz dela saia com aquela força e potência? O quanto ela brinca levando a voz dela pra qualquer lugar que ela quer?  Se não notou, pega esse álbum: começa em “Ponta de Areia”, composta pelo mestre Milton Nascimento, que mais parece um aquecimento pro resto do rolé; de repente você tá sambando na mesma “Passarela” que ela, sorrindo, feliz da vida; e aí emenda em “Só Louco” e você já tá sentando no sofá com metade de uma taça de vinho no copo e a outra metade na cabeça. E você não chegou nem na metade dessa beleza de disco.

Ele saiu em 1975. Foi o terceiro de sua longa carreira. Filha do mestre Dorival e da cantora Stella Maris, dona Dinair, hoje com 76 anos, é um dos maiores nomes da MPB clássica. Tem no currículo apresentações com Gilberto Gil, Maria Bethânia, Toquinho, Zezé Mota, Jards Macalé e por aí vai… Não é qualquer coisa. Nana é Nana.

Alabama Shakes – Boys & Girls (2012)

Eu não era uma garota legal, mas eu não era uma nerd qualquer também. Eu tive problemas para encontrar o meu lugar. Mas quando eu descobri a música, eu tinha um lugar para mim mesma.“, disse Brittany Howard, vocalista de 29 anos da banda americana Alabama Shakes e já dona de 4 Grammys lá em 2016, pelo álbum Sound & Color. Mas não é desse álbum que eu vim falar, por mais que ele seja realmente bom.

O Boys & Girls, lançado em 2012, já começa com Brittany se motivando, pra que ela não deixe o desânimo bater mesmo com todas as dificuldades e frustrações da vida na música “Hold On”. Daí pra frente é só porrada, galera: “Hang Loose” é a música de praia definitiva; “You Ain’t Alone” e “Be Mine” é a música de companheirismo e lealdade definitivas; quer ouvir uma música sobre as mudanças pra vida adulta? “I Ain’t The Same” é a pedida. E isso tudo com uma pegada de blues swingado que é uma delícia. É a pedida mais que certa pro rolé.

Cátia de França – 20 Palavras ao Redor do Sol (1979)

A cantora, instrumentista, professora, escritora e artista plástica (ufa!) paraibana Cátia de França tem é história pra contar em seus 71 anos de idade, tanto dela mesma quanto de outros artistas. No seu primeiro álbum, 20 Palavras ao Redor do Sol (1979), ela se inspirou em poemas do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto para compôr as músicas que dão vida a esse sertão musicado maravilhosamente dançante e encantador.

De mãos dadas e corpo colado, tem que ficar ligado pros pés ficarem tão ligeiros quanto o conto de esperteza trazido em “Quem Vai Quem Vem”; tem até guitarra pra fazer coro à quente e carregada realidade do nordestino sertanejo em “20 Palavras” (“essa luta contra a terra / é uma boca sem saliva”); tem geografia, cultura, feira, amigos e festa em “Itabaiana”… tem tanta coisa linda nesse álbum, com tanta dança gostosa e tanto som bonito, que desconhecer esse tesouro chega a ser sacrilégio.

Letuce – Manja Perene (2012)

Antes de Letrux e da trilha sonora de “Desnude” (em exibição na GNT), Leticia Novaes tava no rolé com a banda Letuce. Formado inicialmente como um duo (Leticia + Lucas Vasconcellos) em 2007, evoluíram para uma banda que lançou três discos com bastante identidade e de qualidade ímpar.

Manja Perene foi lançado em 2012. É o segundo álbum da banda que foi conquistando cada vez mais fãs incrivelmente fiéis ao longo do tempo. Tem alguns dos momentos mais fortes e icônicos dos artistas: vamos de “meu Deus, me dê suas deusas” em “Pra Passear”, passamos pelas conversas de estúdio que antecedem a deliciosa “Chess Trip” e pela curiosa e confessionária “Sempre Tive Perna”, até “eu sinto um susto de sutiã abrindo sozinho” na apaixonada “Sutiã”… na verdade, esse é um dos discos que valeriam uma análise faixa a faixa, e talvez eu esteja até queimando munição falando dele agora. Mas o mesmo aconteceria com qualquer dos outros discos. É que Leticia é Midas e sabe pra sempre.

Alanis Morissette – Jagged Little Pill (1995)
Vou fechar com esse álbum porque pra mim ele é uma das melhores coisas que saíram nos já maravilhosos anos 1990. É que poucos sabem, mas antes de ser Alanis Morissette, a canadense teve uma fase Robin Sparkles e atendia pelo nome artístico de Alanis. E você sente uma diferença muito grande entre a sonoridade das duas fases.
Enquanto antes rolava a vibe mais infanto juvenil, Jagged Little Pill veio mostrar uma outra cantora, mais cética e crítica com as exigências e obstáculos que a realidade insistentemente lhe lembrava. Ela faz isso em alguns clássicos: “Ironic”, uma das maiores expressões musicais do termo plot twist; “You Oughta Know”, que conta com a participação ensandecida do baixista Flea (ele mesmo, o do RHCP); a divertida “Head Over Feet”; “Hand in My Pocket”, que é paradoxalmente um definidor de gerações atemporal – pinta-se um comportamento que se via tanto no jovem dos anos 1990 quanto no de 2018.
Jagged Little Pill é um clássico instantâneo e nostálgico.