Braços entrelaçados e sem donos visíveis se amontoavam no poste de ferro do metrô em busca de equilibro. Entre diferentes pulsos, um deles tinha tatuado a silhueta de um gato pintado de preto. A tatuagem era relativamente grande e cobria suas veias próximas da mão. Encarei aquele gatinho por tempo suficiente para perceber que ele era uma cobertura de outra tatuagem. Embaixo dele existia o relevo da palavra “vida” escrita em letra cursiva.

O vagão estava tão cheio que não consegui descobrir quem era o dono, ou a dona, daquele pulso amargurado, mas imaginei que fosse uma mulher, a julgar pelo tamanho das unhas.

O que será que houve com a moça para querer apagar a vida do pulso? Se “João” estivesse ali escrito, ou qualquer nome que já mereceu sua dedicação e agora só traz memórias ruins. Ou se talvez a palavra fosse alguma gíria datada, que o passado largou pra trás mas a eternidade da tatuagem não a deixava seguir adiante. Mas era vida.

Talvez ela só tenha enjoado do rabisco, acontece bastante. Ela pode ter se tatuado muito jovem, e agora já não reconhece mais aquela palavra se arrependendo da decisão permanente. Mas como se arrepende da vida? Logo a mulher que foi otimista e grata o suficiente algum dia, a ponto de colocar na pele esse substantivo tão carregado de importância. O que teria que ocorrer pra mudar sua opinião a respeito? O que a vida lhe fez pra merecer ser trocada por um gato preto qualquer?

Tentei me mexer a fim de descobrir o rosto da dona do pulso de vida apagada, mas os corpos estavam tão imprensados que quando me movia, todos mexiam comigo e ela continuava fora do meu campo de visão. Eu queria saber se era jovem ou velha, se já tinha dado tempo dela de fato se decepcionar com a vida, ou se era uma moça imprudente, indecisa com os rabiscos na pele.

O metrô esvaziou em Botafogo e fiquei tão atordoada pela manada de transeuntes atraídos pelas portas que perdi de vista a distração da minha viagem. Corri para as janelas do vagão, procurando aquele pulso, mas não o achei entre os braços que se movimentavam na plataforma. Cheguei ao ponto final da linha aceitando que nunca vou saber o motivo daquela decisão tão extrema. E nem descobrir como era o rosto da pessoa que anda por aí com a vida apagada do pulso.