O que representa realmente o Dia Internacional da Mulher? Às vezes penso que talvez estejamos tão acostumadas a símbolos esvaziados de sentido que não nos preocupamos em resgatar o sentido deles. O Dia Internacional da Mulher tem uma história bem extensa e, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não se deve a um incêndio que matou operárias em Nova Iorque.

Em 1910 aconteceu o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhagen, na Dinamarca. Nesse congresso, Clara Zetkin, membro do partido Comunista Alemão ativista muito ferrenha dos direitos das mulheres e do sufrágio universal. Zetkin então propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher, mas não estipulou uma data específica, sendo comemorado em dias diferentes durante alguns anos.

Movimento pelos direitos das mulheres eclodiam em várias partes do mundo nessa época, como em Nova Iorque, Berlim e Viena em 1911, São Petersburgo em 1913, etc. No dia 8 de março de 1917, na Rússia, mulheres trabalhadoras do setor de tecelagem entraram em greve e reivindicaram o apoio dos operários do setor de metalurgia. Esse ficou famoso e conhecido por ser o início da Revolução Bolchevique, que se desenrolou até outubro de 1917. Depois da Segunda Guerra Mundial, o dia 8 de março foi se tornando aos poucos o dia simbólico de homenagem às mulheres, inspirado na greve convocada pelas mulheres russas.

Sendo assim, o Dia Internacional da Mulher, a princípio, vinha carregado de ideais e simbologia e sua intenção era celebrar a luta de mulheres por seus direitos e homenagear as que lutaram antes. A minha pergunta já não é mais o que representa o Dia Internacional da Mulher, e sim o que representa o Dia Internacional da Mulher no século XXI? Qual a simbologia desse dia para as mulheres de agora?

O Dia Internacional da Mulher no século XXI é um dia de hipocrisia, sejamos sinceras. É o dia em que enquanto nos dão rosas e nos exaltam nos programas da televisão aberta, também fecham os olhos para o que nos atinge e nos machuca, para o que nos concerne. Não se fala do verdadeiro sentido por trás desse dia, que passa muito longe de flores e gentilezas. É um dia que no qual devemos falar sobre luta, sobre conquistas e, sobretudo, sobre as novas demandas (que na verdade nem são tão novas assim).

O Dia Internacional da Mulher, como tantos outros dias simbólicos, foi esvaziado de sentido pelo mercado e pela mídia que romantizam o “ser mulher”, que perpetuam estereótipos e símbolos que deveriam ser combatidos nesse dia. Precisamos retomar essa data e seu significado, sua carga de luta de mulheres por mulheres. E foi dentro dessa ânsia de uma retomada de sentido para um dia tão importante que a notícia da convocação de uma greve geral chegou como um sopro de esperança.

Num manifesto publicado no Guardian no início de fevereiro de 2017, ativistas feministas norte-americanas convocam uma greve geral para o Dia Internacional da Mulher. Esse manifesto foi assinado por nomes famosos dentro do feminismo, como Angela Davis, e ressalta em suas reivindicações a forma como as condições de vida das mulheres negras e trabalhadoras, desempregadas e imigrantes têm se deteriorado nos últimos 30 anos.

O manifesto também apresenta a luta feminista do século XXI como uma luta de agenda expandida, que combina a luta contra violência masculina, a oposição à desigualdade salarial, a luta contra racismo e xenofobia, a luta contra exploração sexual, exploração laboral e trabalho escravo, entra outras tantas demandas que criam uma agenda muito maior do que inicialmente era a agenda feminista.

Esse manifesto veio como um sopro de esperança pra mim porque ele invoca o sentido por trás do Dia Internacional da Mulher e o adapta às questões das mulheres do século XXI. Apesar de parecer que caminhamos muito e que conquistamos muitos direitos, nós ainda não chegamos nem perto do que buscamos. O manifesto pela greve geral no dia 8 de março nos lembra que as demandas ainda são muitas e que muitas mulheres foram deixadas para trás na caminhada feminista, como as mulheres negras, indígenas e imigrantes.

O que devemos levar em conta aqui é que está em nossas mãos a tarefa de recuperar o sentido do Dia Internacional da Mulher e inseri-lo no nosso atual contexto histórico, ainda permeado por misoginia, claro, mas que não pode mais ignorar questões essenciais à libertação das mulheres, como o racismo e a xenofobia. São questões antigas que foram jogadas de lado e não devem ser ignoradas nunca mais. No mês do Dia Internacional da Mulher, eu proponho a você uma reflexão sobre o nosso feminismo e suas demandas.