Minha visão turva com a purpurina e cortada pelos cílios postiços enormes encontraram o olho de um rapaz vestido de pirata e seu tapa olho. Foi amor à primeira vista. Ele parecia que já me olhava tem tempo, como se nos conhecêssemos. Trocamos sorrisos que me arrepiaram as pernas e tomei mais um gole da minha cerveja já quente. Enquanto tentava tirar um fio de cabelo preso nos cílios, desencontrei seus olhos por alguns minutos, mas quando os fui buscar, ainda olhavam pra mim.

Seria esse homem o amor da minha vida? Eu contaria para meus filhos como minha história de amor com seu pai começou no carnaval? Seria esse um desses momentos que não damos importância no agora mas que carregamos as consequências para sempre conosco? Eu conheceria mesmo o homem da minha vida nessa conjuntura? Fantasiado de pirata, coberto de purpurina suor e cerveja?

Eu, cupido, joguei todo meu charme e confete pra chamar sua atenção, enquanto sambava ao som da marchinha e da muvuca. Na verdade, a maquiagem já derretida e o cabelo preso pelo calor, já não me sobravam mais muito charme, então caprichei no confete mesmo. Fernanda, vestida de sereia me trouxe mais uma cerveja, era a minha vez de pagar mas pedi que ela fosse no meu lugar, cautelosa pra não romper esses olhares tão cultivados com o rapaz.

“Se você fosse sincera, ô ô ô ô, Aurora” no fundo. Marina disse coisas no meu ouvido e eu fingi entender, rindo. No carnaval o riso funciona muito adequadamente como resposta. Marcelo e Felipe passaram pelo nosso grupo e demos ois distantes, eu não sairia do único pedaço de sombra com vista para um lindo pirata para cumprimentar amores de carnavais passados.

Senti-me no direito de me apropriar do dono dos meus sorrisos, então, meu pirata, levantando o tapa olho pra cima, burlou o grupo de fadinhas que dançavam entre nós e veio na minha direção. Será que queria me mostrar que de fato tinha dois olhos ou seria mais fácil me conquistar usando as duas bolinhas de gude azuis que tinha ao invés de uma?

“Ei, cupida, joga essa fecha pra cá” e o pirata me mostrou o peito.

“Tem certeza? Uma vez flechado é pra sempre, hein?”

“Certeza absoluta, com você eu caso”.

Nos beijamos pelo tempo de uma vida inteira e cinco minutos. Quando abrimos os olhos e voltamos para o presente, meu batom vermelho estava em seus lábios. Eu e meu pirata nos despedimos para sempre e nunca vou esquecer como aquela boca desconhecida, como outras, tinha o gosto familiar de amor. Nesse bloco renovei os votos do meu casamento eterno com ele, que eu acho em piratas diferentes, o carnaval.