Nove horas da manhã e o metrô lotado. Já contei três diabos, dois homens de fralda, cinco unicórnios, seis homens vestidos de mulher e dez fadas, masculinas e femininas. Os grupos não se conhecem entre si, mas acredito que até o Centro já serão formados alguns casais e amizades. Um rapaz com chifres vermelhos, sem camiseta de saia de tutu vermelha se aproximou de uma menina com uma auréola na cabeça e asas brancas.

“Ei, anjinha, acho que somos perfeitos juntos hein!?”

As amigas da menina riram todas ao mesmo tempo, mas a menina não lhe doou muita atenção. Ele não parecia se importar, voltou para seu grupo aparentemente orgulhoso da abordagem escolhida, mesmo que falha. Do outro lado do vagão, uma menina se pendura no corrimão de ferro. Será que passou alguma vez pela cabeça dos engenheiros do metro que aqueles suportes de equilíbrio um dia serviriam de pole dance? Na frente dela, uma senhora encara a cena assustada, imagino que ela compartilhe da minha agonia pela possibilidade de uma queda feia da menina.

Em cada ponto, um mar de gente. Novos personagens e grupos parecidos. O burburinho do metrô agora havia se encorpado, já era barulho mesmo. Como era alta a felicidade dessas pessoas. Nem me concentrar no Gabriel García Márquez eu conseguia mais, estava lendo a mesma linha há horas sem assimilar as palavras, então guardei o livro e me entreguei ao entretenimento alheio.

Imagino que essa alegria toda pudesse ser contagiante, se o meu destino fosse minimamente parecido com o deles, mas só consigo encarar um rapaz cheio de luzes de LED penduradas e pensar nas horas que vou perder sentada na frente de outro brilho, o da tela de um computador, trabalhando.

Em meio a pensamentos de autopiedade, chegávamos na estação Botafogo e vi um casal descendo as escadas em disparada para o vagão. Corriam tanto que aquela parecia sua única chance de chegarem ao destino feliz que todos os outros iriam. O menino corria na frente da garota, com a mão estendida para atrás, como se conseguisse puxa-la. O vagão disparou o sinal de que as portas iriam se fechar e os personagens que me rodeavam se viram aos gritos:

“Corre que dá! Vem, vem, vem!”

Eu tinha certeza de que eles jamais conseguiriam, o rapaz, talvez, mas a jovem estava muito atrás. Será que seu namorado iria sem ela? Quando as portas de ferro surgiram uma de cada lado do vagão, como num passe de mágica, eles entraram. E a torcida foi à loucura.