O feminismo teve, e continua tendo, um impacto extremamente violento na minha vida. Depois de me aproximar da ideologia feminista, eu comecei a reparar em coisas que eu não reparava antes – ou até reparava, mas não sob a visão crítica que o feminismo me proporcionou. Situações constrangedoras e violentas pelas quais eu passei pelo simples fato de ser mulher foram escancaradas bem na minha frente pelo feminismo. Eu percebi a existência de um sistema social elitista, racista, patriarcal e misógino e suas consequências sobre cada mulher.

Dentre todas as novas percepções sobre a nossa sociedade e as nossas relações sociais que o feminismo me trouxe, uma das que mais me impactou foi a percepção da minha mãe enquanto mulher antes de tudo. O que eu quero dizer com isso é que eu passei a vida inteira vendo a minha mãe como uma figura exclusivamente materna, era isso o que ela representava pra mim: uma mãe.

Mas o que eu entendi depois foi que, muito antes de ser mãe, ela é uma mulher, e como toda mulher ela com certeza já sofreu violências na vida. Como toda mulher, ela já foi assediada, já foi julgada, já foi objetificada, ela já sofreu e muito provavelmente continua sofrendo com a pressão estética, ela sofreu e com toda certeza ainda sofre com a pressão dos papéis de gênero.

Quando eu finalmente consegui dissociar minha mãe da figura exclusivamente materna que ela representou pra mim durante minha vida inteirinha, eu senti uma dor enorme e uma compaixão ainda maior. Eu finalmente entendi tudo o que ela me disse a vida toda, eu finalmente entendi todas as suas preocupações e seus questionamentos, eu entendi todas as restrições que ela me impôs e eu entendi, por fim, que minha mãe estava certa o tempo todo.

Minha mãe pode não ter sido tão familiarizada com o feminismo durante minha infância quanto eu sei que ela é hoje em dia, mas todos os ensinamentos que ela me passou eram, no fundo, ensinamentos feministas, mesmo que nenhuma de nós duas tivéssemos consciência disso.  Eram ensinamentos que prezavam pela minha segurança, e mais ainda, pela minha segurança enquanto uma mulher que vive num mundo que odeia mulheres.

Minha mãe me ensinou a não competir com outras mulheres, muito menos pela atenção masculina, e ela não me ensinou isso com base em teoria feminista, ela me ensinou isso com base na experiência própria. Minha mãe também me ensinou que quando mulheres atacavam outras mulheres, muito provavelmente era porque elas se sentiam inseguras e eram induzidas a fazer isso. Minha mãe me ensinou a valorizar meu intelecto acima dos atributos físicos, ela me ensinou a acreditar no meu potencial e me incentivou a correr atrás dos meus sonhos.

Minha mãe me ensinou a tomar cuidado com todo e qualquer homem com quem eu me relacionasse. Minha mãe, como tantas outras mães por aí, repetia aquela famosa frase sobre os garotos só estarem atrás de uma coisa. Ela também me ensinou a não confiar minha segurança a nenhum namoradinho, peguete ou ficante que fosse. Ensinamentos esses que eu, no auge da minha prepotência adolescente, achava moralistas. Mal sabia eu que estava tão errada quanto minha mãe estava certa.

Quando eu me mudei para o Rio eu tinha apenas 15 anos e eu só posso imaginar a preocupação da minha mãe quando pensava na sua filha adolescente sozinha nas ruas de uma cidade grande. Ela me ligava, e ainda liga, todos os dias, cobrando notícias e despejando mais conselhos, às vezes os mesmos de sempre: não ande sozinha na rua à noite, cuidado quando for sair com algum garoto, cuidado quando for a alguma festa para não batizarem sua bebida, cuidado quando for consumir bebidas alcoólicas, cuidado. Cuidado. Cuidado.

Hoje, com 23 anos, eu acho que aprendi muito e que ainda tenho muita coisa pra aprender com a minha mãe. A diferença é que, agora, eu tenho a capacidade de enxergar os conselhos da minha mãe como conselhos de uma mulher para outra, de uma mulher que já viveu e experienciou um bocado do que a sociedade misógina nos reserva. Hoje eu enxergo os medos da minha mãe como se fossem meus, porque no fundo eles são os mesmos. Mãe, obrigada por tudo. Você estava, de fato, certa o tempo todo.