Qualquer pessoa familiarizada com o feminismo sabe que o movimento luta pela libertação das mulheres enquanto uma classe oprimida. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, o feminismo não prega uma igualdade entre os sexos, até porque isso não faria sentido, uma vez que mulheres possuem necessidades completamente diferentes de homens, como, por exemplo, atendimento médico diferenciado (obstetria, ginecologia).

Quando eu falo que buscamos a libertação das mulheres enquanto uma classe oprimida, eu quero dizer que existem diversos fatores que restringem a liberdade das mulheres de simplesmente viverem suas vidas em paz. Mulheres vivem sob um constante medo que não é familiar aos homens. A gente tem medo de sair sozinha na rua, independente de ser dia ou noite, e não é porque temos medo de assaltos ou roubos, o nosso medo vai muito além disso.

Mulheres saem de casa todos os dias preparadas pra enfrentar a realidade comum a todas nós: sabemos que, muito provavelmente, seremos alvo de algum tipo de assédio, seremos observadas e julgadas, seremos analisadas, seremos objetificadas, e, na pior das hipóteses, sabemos que corremos o risco diário de sermos violentadas e estupradas. Isso é real, é um medo que a gente enfrenta cada vez que passa por uma calçada vazia, por uma rua escura, cada vez que entramos dentro de um ubere ou um taxi. O medo é constante.

O nosso medo deriva da absoluta recusa dos homens a nos garantirem a liberdade de andarmos seguras. Em um âmbito menor, nossos medos variam desde o assédio sexual na rua até a violência obstétrica em consultórios médicos; desde a falta de credibilidade na área profissional até o risco diário de estupro; desde o medo de ter um parceiro violento até o medo de denunciar uma agressão e não dar em nada.

Em âmbitos maiores, nossa liberdade é negada diariamente por homens em posições decisivas de poder, como homens nos campos legislativo, executivo e judiciário. Homens que não legislam ou governam a favor de mulher nenhuma, homens que inviabilizam atendimento médico de qualidade para mulheres que não podem pagar por isso, homens que negam o direito à vida das mulheres literalmente diariamente.

Homens entendem que possuem esse poder nas mãos e usam, porque além desse poder nos tirar a liberdade ele também oferece inúmeros privilégios aos homens. Quando você mantém uma classe inteira oprimida, é muito mais fácil mantê-la sob seu controle, e a opressão praticada por homens sobre mulheres é uma coisa muito antiga e, portanto, muito entranhada nas nossas convenções sociais, o que torna ainda mais difícil nos desvencilhar dessa opressão sistêmica.

O que acontece é que as opressões que sofremos são instrumentalizadas para fazer a manutenção do poder masculino. É do interesse de homens que mulheres sintam medo, que mulheres se sintam intimidadas, pois é esse medo e essa intimidação que nos mantém ali, em posições de submissão. Por isso é tão importante desafiar essa lógica machista e misógina na qual estamos inseridas: só desafiando esse sistema é que podemos, de fato, combatê-lo.