Eu sou uma mulher branca, magra, de classe média. Eu me encaixo em basicamente todos os padrões de beleza impostos socialmente e, ainda assim, existem dias nos quais eu acordo me odiando, odiando meu corpo, meu rosto, odiando cada centímetro da imagem que eu vejo no espelho.

Durante parte da minha infância e pré-adolescência eu passei por situações bem ruins em relação ao bullying de alguns colegas. Eu, que sempre havia sido uma criança magra, comecei a ganhar peso porque descontava a ansiedade na comida. Nesse período eu recebia alguns xingamentos relacionados ao meu peso ou à minha aparência: orca, baleia assassina, majin boo, entre outros. Era recorrente, eu voltava pra casa chorando quase todo dia e abraçava minha mãe, que vendo meu desespero resolveu me levar a uma nutricionista que me passou uma dieta (eu lembro que ela chamava de “reeducação alimentar”).

Comecei então a seguir a tal “reeducação alimentar”, mas durante a noite, quando eu sabia que todo mundo em casa estaria dormindo, eu ia escondida para a cozinha e comia. Comia muito. Comia arroz puro, comia biscoito recheado, comia o que eu encontrasse pela frente. No dia seguinte acordava e seguia à risca minha dieta na frente da minha família. Foi isso durante um tempo… até eu realmente não aguentar mais toda a pressão, o bullying, a rejeição.

Passei então a seguir minha dieta de verdade, obedecendo tudo o que a nutricionista havia me passado e parei de procurar comida na calada da noite. Com o tempo perdi peso, emagreci, minha figura voltou a ser magra e o bullying relacionado ao meu peso parou. Já fazem 10 anos que eu não sei o que é sofrer gordofobia.

Eu não tenho a mínima ideia do que é ser uma adolescente ou jovem adulta gorda, toda a minha experiência com a gordofobia se resume ao bullying de alguns pré-adolescentes idiotas e é isso. Eu não sei o que é entrar em um ônibus público e não ter espaço suficiente para passar pela catraca, eu não sei o que é ser encarada por olhares de reprovação durante uma refeição, eu não sei o que é se sentir mal representada na mídia, eu não sei o que é se sentir indesejada por causa do peso ou formato do corpo, eu não sei nada disso.

A única coisa que eu sei é que cada apelido que me deram doeu, cada vez que me ridicularizaram por estar acima do peso padrão doeu, cada vez que eu me olhava no espelho doeu, cada vez que eu tentava colocar uma roupa que não cabia mais doeu. Tudo isso doeu, e doeu muito.

Hoje eu tenho o enorme privilégio de poder dizer que superei grande parte do ódio pelo meu próprio corpo, mas isso é só porque eu cedi à pressão e me encaixei num padrão. Quantas outras mulheres podem dizer o mesmo? E quantas mulheres fora do padrão têm a oportunidade de se sentirem bem com seus próprios corpos?

Eu sei qual foi o tamanho da minha dor, mas não tenho a mínima ideia do tamanho da dor de todas as outras mulheres que continuam passando por isso todos os dias. Eu não sei qual é o tamanho dessa dor, mas tenho certeza que essa dor pesa mais do que qualquer corpo fora do padrão magro. Eu sei que essa dor não deveria ser fardo pra ninguém, eu sei que a consciência de quem julga alguém pelo peso deveria pesar mais, isso eu sei.