Em 2006 tudo era diferente: Brasil tinha ganho a última Copa; Ciara, Fall Out Boys e John Legend concorriam ao Grammy de artista revelação e Boulevard of Broken Dreams levava o de Melhor Música…

Também não tinha banda larga, muito menos smartphone e 3G era coisa de filme futurista. Por isso, quando uma música ia ser lançada, as rádios anunciavam enlouquecidamente. Lembro que marcaram dia e horário pro lançamento mundial oficial da nova música do Coldplay, que faria parte do novo álbum deles. A música foi Speed of Sound. Eu tava descendo o Viaduto de Madureira numa Kombi quando começou. Foi mó loucura.

A música ficou meio esquecida com o passar dos anos, tal como a maioria das músicas desse verdadeiro albão da porra que é o X&Y. E é sobre ele que venho falar aqui com vocês.

Os dois primeiros álbuns do Coldplay foram apaixonados e densos, salvo uma música ou outra. As músicas falavam mais de como o mundo afetava a si do que da projeção de si no mundo. Lembro (sempre lembranças) que um conhecido me disse que ouvia Sparks, do álbum Parachutes, e conseguia visualizar um suicídio.

As melodias eram quase sempre soturnas, às vezes lamentosas. Então quando os caras abrem um álbum com a porrada enguitarrada que é Square One, você não consegue anotar a placa do caminhão porque você simplesmente foi pego de surpresa. What If, por mais que traga o familiar piano de Chris Martin, repete a guitarra e daí você já sente que o álbum vai trazer mudanças pro álbum da banda.White Shadows e Talk são quase irmãs: riffs chiclete, reflexões sobre insegurança, conhecer a si mesmo, estar sem saber o que fazer e solidão. A diferença é que “Talk” ganhou esse clipe legal, com esse robô fofinho:

Low e The Hardest Part vêm uma atrás da outra pra falar da impotência que se sente frente a uma situação irrecuperável – aquela sensação nada incomum. The Hardest Part deixa isso mais claro, ainda que eu lírico esteja literalmente saber o que fazer ou o que falar – “Everything I know is wrong / Everything I do, it just comes undone / And everything is torn apart / Oh and that’s the hardest part”.

Speed of Sound (aquela da minha lembrança da rádio) não foi escolhida pra ser o primeiro single a toa: piano marcante, refrão regado a energia e uma atmosfera de amanhecer e de mundo de novidades que os caras estão explorando, tanto no sintetizador que serve de plano de fundo pra música quanto na letra que é um convite pra explorar o que o mundo tem a oferecer.

Não vou deixar de falar sobre Swallowed in The Sea (eu não gostava dela até outro dia), que não é a mais íntima do álbum, mas é uma das que mais fala sobre as dificuldades de se estar num relacionamento: um amor que você sabe que é imperfeito, mas que não se vê o fim de tão grande que é; um amor que pertence aos dois, e não ao mar de dificuldades que tanto pode assustar.

O melhor por último: A Message e X&Y (que tem até um ar meio Pink Floyd) trazem aquela mensagem de estar ao lado, de altruísmo, daquele amor companheiro que tanto faz bem, mas não trazem o impacto de Fix You, a música que mais marcou o álbum e uma das mais importantes da carreira da banda. A canção é uma força cósmica por completo. O mundo às vezes parece um lugar inóspito e sombrio e se isolar parece a melhor coisa a se fazer. Fix You vem lembrar que nunca estamos sozinhos e que de alguma maneira tem luz e ombros ao nosso lado, mesmo que num primeiro olhar isso pareça difícil.

Na verdade, boa parte das músicas do álbum foram compostas por Chris Martin numa tentativa (nem sempre bem sucedida) de confortar sua então esposa Gwyneth Paltrow após a morte de seu pai. Daí tantos temas tão íntimos: a impotência surgida de uma insegurança, a solidão, as dificuldades surgidas de um relacionamento. E por fim o álbum vem como uma declaração de amor em meio à perda e às dificuldades, algo que sempre sensibiliza um relacionamento. Mostrar força quando se está vulnerável, crer num futuro que lhe parece tão indefinido; a franqueza e sinceridade de Chris Martin confortam e emocionam, mesmo que com a cicatriz aberta. Um álbum que ficou meio esquecido no tempo, infelizmente, mas que se destaca como um dos melhores da banda.