Seguindo com as listas de coisas boas de 2017, vamos aos artistas tupiniquins que se arranjaram pra fazer nossa cabeça balançar e o coração bater mais acelerado. Aqui eu vou trazer algumas coisas perdidas, mas vou trazer umas paradas que também fizeram um barulho pelos palcos ou que tiveram uma relevância pra além da música – algo que, graças às deusas e deuses, esteve forte na música brasileira doismileseteana.

Vamos aos registros, mais uma vez em ordem alfabética

Beijo Estranho –  Vanguart

A banda de Cuiabá levou o som pra um outro patamar em seu quarto álbum. Tem dor, tem felicidade, tem sofrimento, tem peito aberto – tem amor pra caramba! Um álbum maduro, grande, colorido e que emociona e faz cantar alto no banheiro. É a prova cabal de que o futuro da banda (uma versão brasileira de The Frames) é brilhante e cheio das coisas boas. Pode ouvir sem medo de se apaixonar:

Esú – Baco Exu do Blues

Ninguém tava preparado pra esse disco. O cara explodiu praticamente da noite pro dia. A capa de disco mais polêmica de 2017 virou assunto de vários textões pelos Facebooks da vida. O baiano Diogo Mancorvo botou a cara à tapa e veio sem escrúpulos mandando abrir caminho pro Exu passar e a galera não só obedeceu como seguiu atrás. O cortejo ainda tá rolando e tá bonito. No show, todo mundo pula. Medo transformado em admiração em vermelho e preto. Exu não conhece a negação pois ele nasceu antes dela, segundo uma amiga minha numa carta de aniversário. E Baco é isso: portou, chegou e acima da cabeça consciente só tem mesmo o punho cerrado.

Galanga Livre Rincón Sapiência

Se não é o melhor disco brasileiro do ano, certamente é o mais importante. A verdade é que é uma porrada atrás da outra e que incomoda. Incomoda porque Rincón fala com letras cruas, na base do papo reto, sem medo algum de represália. O dândi negro que estampa a maravilhosa capa do disco levanta a autoestima preta, vira espinho na mão do branco e arma a rodinha com guitarras, batidas, versos que mostram a realidade cruel da vida do preto no Brasil – e que não entender nada de um assunto não te impede que você seja foda. O destaque, obviamente, vai pra esse clássico instantâneo. Porra, pode arregaçar os portões:

Gragoatá – Gragoatá

O que eu gosto no som do primeiro disco da banda vinda das terras de Arariboia é que ele não precisa ser super ousada pra conquistar e pra alçar vôos altos. É aquele som arroz com feijão, bem temperado, que você sabe que é o necessário pra voltar pro eixo. Às vezes é um beijo que agrada os ouvidos, em outras é a mão que guia a dança da saia no carnaval and I think it’s beautiful.

Letrux em Noite de Climão – Letrux

Vou falar desse disco de novo sim: levou o Prêmio Multishow de Melhor Álbum do Ano, já rodou alguns palcos do país com um show vibrante e intravenoso, encantou e mexeu com mil e três  e muito mais corações… a volta fenixada de Leticia Novaes em forma de Letrux foi um verdadeiro fenômeno. A palavra do Climão foi devidamente difundida e as deusas agradecem – que estrago!

Nabia – Cinnamon Tapes

Eu gosto muito dessa estética sonora misteriosa-soturna-minimalista que a Susan Sousa (a artista por trás de Cinnamon Tapes) traz em suas músicas. As músicas não têm muitas surpresas, não oscilam, são mais monótonas – são exatamente o que precisam ser. São lindas, melancólicas e são parte do motivo de eu dar graças por ter gente que ouse.

Pajubá – Linn da Quebrada

O funk e o grave são plano de fundo pra essa incrível manifestação política que é Pajubá-  termo que designa o dialeto criado por grupos marginalizados para manterem sua comunicação segura. Tal como Rincón e Baco Exu, Linn da Quebrada parece não saber o que são papas na língua e bota o pau na mesa nesse álbum mais explícito dessa lista. O sexo, o linguajar e um álbum que já começa intenso na capa – uma travesti passando o cabelo a ferro. “Pajubá é a celebração da (re)existência”, ela disse. No canal dela no Youtube você ainda consegue ver o videoálbum, com um clipe pra cada uma das 14 músicas. Aqui eu deixo esse samba que, sinceramente, quase me fez chorar:

Recomeçar Tim Bernardes

O vocalista da banda O Terno cunhou um novo caminho do labirinto de opções que é a jornada musical e lançou seu primeiro álbum solo. O trabalho é pura poesia: começa e termina (ou recomeça, dependendo de quantas vezes seguidas você ouça o álbum) em Recomeçar, músicas que dão nome ao disco. As letras ainda mais pessoais vêm acompanhadas de arranjos orquestrados com violões, metais (trombone, tuba, eufônio), contrabaixo acústico, clarinetes e o que mais bonito tiver pra compor um dos álbuns folks mais bonitos já produzidos aqui em Pasárgada e certamente um dos mais bonitos do ano (e aqui eu já levo pra escala mundial).

Torcendo a terra, do Ricardo Herz Trio

São oito músicas instrumentais distribuídas por 52 minutos de intercâmbio cultural – às vezes é só disso que a gente precisa. Lançado logo no início de janeiro, o terceiro álbum do trio mistura o jazz com o jongo, ritmos árabes/judeus, o frevo com o rastapé, o choro e o xote e o que mais der. As complexas melodias e brincadeiras criadas pelo trio e pelos músicos convidados levam o ouvinte a todos pro meio de uma festa junina no interior do país, ou a uma dança a dois bem apaixonada, ou a cenários misteriosos de filmes de detetive dos anos 60… Tipo, te desafio a não se animar ouvindo essa belezura aqui:

Xeniada Xenia França

Diretamente da Bahia, Xenia França, vocalista do coletivo paulista Aláfia, mistura as raízes sonoras africanas com o jazz e o neosoul brasileiro, flerta com o hip-hop, com o funk e com o experimental, traz trava-línguas e poesias impetuosas pra falar de negritude, feminismo, pra cobrar respeito. Questiona, valoriza, empodera: é chegada a hora de falar muita coisa.

 

E você, qual disco curtiu? Essa lista segura a onda ou tá faltando algum?
Quer dizer, eu sei que estão faltando alguns… mas quais são?