Chega dezembro e todos os sites especializados em música começam a lançar as listas de melhores discos e músicas do ano. Não que o Cariocando seja especializado em música, mas (confissão:) sempre foi meu sonho fazer essa lista de final de ano e eu já tô montando ela desde antes de começar a escrever pra vocês.

(Pois é)

Mas eu nem vou fazer a lista com os melhores, não. Essa é uma lista potencialmente repetitiva: Kendrick Lamar, Arcade Fire, Gorillaz, Drake, The xx, Jay-Z, Courtney Love & Kurt Ville… todos esses são nomes certos nas rodinhas, todo mundo já ouviu, todo mundo tá ligado.

Trago pra vocês, senhoras e senhores, algumas paradas muito legais que acabaram não caindo tanto no mainstream. Acaba que vou deixar discos que amei fora da lista (vai doer não falar do novo da Feist e do The National, mas já deixo a menção aqui), mas uma das minhas missões na Terra é divulgar o que tem de perdido por aí. Bora?

(Ordem alfabética, pra não criar mais conflitos internos)

 

Art in the Age of Automatation – Portico Quartet

Admito que dá até um arrepio de começar essa lista com um disco instrumental – no melhor dos sentidos possível. É que você também sente arrepios ouvindo as músicas que esse quarteto inglês montou pro seu quarto álbum. Enquanto antes eles tinham uma pegada bem acústica na mistura de percussão e metais, agora eles trazem uns elementos eletrônicos e nos presenteiam com um dos melhores álbuns de nujazz (a mistura de jazz com elementos da música eletrônica) já lançados. É a música que você ouve enquanto estuda, enquanto dirige, enquanto corre… você que escolhe. É tudo lindo.

Digging a Tunnel – sir Was

O inquieto sueco Joel Wätsberg tocou tudo o que você ouve nesse álbum gravado entre 2014 e 2015, depois de ter percorrido EUA, Moçambique, África do Sul e Zimbábue. Já mostra um baita potencial logo em seu álbum de estreia, com músicas bastante marcantes envolvidas numa vibe eletrônica que cai como uma luva em dias mais densos.

Fin – Syd

Dona de uma das vozes mais deliciosas de se ouvir na atualidade, Syd estreia sua carreira solo fazendo um som que flutua entre o hip-hop, o soul e o R&B, traz samplers envolventes e tudo isso resulta numa maravilhosa viagem pela liberdade musical que ela se permitiu se dar depois que Ego Death, álbum de sua banda The Internet lançado em 2015, explodiu nos cantos do mundo. Álbum cheio de sinceridade e de boas escolhas que definitivamente não pode passar despercebido. Mais: também nesse ano ela deixou três excelentes músicas no EP Always Never Home.

God First – Mr. Jukes

Há alguns anos atrás tinha uma banda chamada Bombay Bicycle Club. A banda entrou num hiato indeterminado e um dos projetos que surgiram é do vocalista Jack Steadman. O cara rodou o mundo catando várias influências, se trancou em casas de jazz japonesas e convocou uma galera de peso pra participar do álbum de estreia de seu novo projeto, Mr. Jukes. Tem Liana La Havas, Charles Bradley, De La Soul e mais uma galerinha rendendo várias músicas fodas pra entrar em várias playlists. Se liga nessa coisa linda desse video:

Hit The Light – Ten Fé

Um dos primeiros lançamentos do ano foi esse álbum de estreia do duo inglês. Viajando entre o rock alternativo e o dream pop, as 11 faixas desse álbum vêm com nostalgia e pra servir de fundo pra algumas das melhores cenas que você viveu nesse ano. O duo já mostra muito potencial pro que quer que possa vir no futuro e certamente Ten Fé é um nome pra se guardar com carinho.

I Used to Spend So Much Time Alone – Chastity Belt

Esse é o terceiro álbum das meninas do Chastity Belt (que nome, não é mesmo?). O quarteto formado por quatro amigas norte-americanas retorna à sonoridade menos punk e mais marcada do que no primeiro álbum, mas de uma maneira ainda mais madura e cheia de reflexões em suas letras. Muita sintonia e viagens muito bem trabalhadas nesse álbum que vale demais a pena conferir.

Jordan Ireland with Purple Orchestra – Jordan Ireland with Purple Orchestra

Tem uns momentos em que a única coisa que a gente precisa é de um bom livro, chocolate e um abraço. Só que nem sempre tem alguém pra abraçar… e aí a bad bate. Esse álbum abre a cota bad dessa lista: o australiano Jordan Ireland segue sua jornada musical pós-Middle East (sua antiga banda) e brinda logo no começo do ano o lançamento desse que é provavelmente o álbum mais bonito dessa lista (ao lado do último nome). Um álbum caprichoso, delicado, que parece ter sido forjado pelas mesmas mãos que inventaram a saudade. Lo-fi de qualidade singular, espirituoso, cheio de camadas que, no fim das contas, funcionam bem como aquele abraço que você tava precisando.

Lune Rouge – TOKiMONSTA

Tal como a lua vermelha que o álbum carrega no nome, as 11 faixas trazem aquela mistura de música eletrônica (elementos do downtempo e do deep house), pop e hip hop com uma rara qualidade. A produtora Jennifer Lee (o nome verdadeiro da artista) dá o tom pra dançar, flertar e tudo mais o que você faria numa balada em pleno sábado à noite. Não deixe passar, é sucesso garantido.

MAKANDA at the End of Space, the Beginning of Time – Pierre Kwenders

Essa é a primeira, mas não será a última vez que vou falar desse cara aqui no blog. O congolês José Louis Modabi se juntou a músicos americanos e canadenses pra gerar esse álbum que é uma das viagens mais legais que você vai dar esse ano. Misturando a rumba congolesa com o gospel, o rock, o pop, hip-hop, o disco é uma salada de frutas: colorido, cheio de gostos diferentes, incrivelmente saboroso e refrescante. É tanta novidade e com uma sonoridade tão irresistível que as pessoas vão te olhar sorrir e dançar sozinho na rua e você nem vai ligar.

Migrations – Bonobo

Eu sou suspeito pra falar desse álbum porque quando alguém me pergunta qual a minha banda predileta eu penso em Bonobo. Eu fico anos ansioso pelo lançamento de trabalhos novos dele. No início de 2016 ele tweetou dizendo que até o fim do ano ia rolar disco novo e eu mal me aguentava. Quando o disco saiu logo na primeira semana desse ano, ele começou com uma das melhores faixas do ano (Migrations) e algumas das melhores músicas de todos os trabalhos de Simon Green (o Bonobo em pessoa). O álbum ainda tem direito à participação de Chet Faker e Rhye. É tanta porrada que tô sentindo desde janeiro. E se liga nesse absurdo de clipe:

Tabiat – Mooner

Dentre as várias possibilidades de excentricidades da vida, eu nunca achei que fosse botar um álbum de uma banda da indonésia como um dos melhores do ano. Não é algo que passa pela cabeça com muita naturalidade. Mas taí: essa porrada em forma de hard rock e stoner é imperdível pra qualquer fã do gênero. É um tiro atrás do outro, é a cabeça balançando a cada música com instrumentais que cumprem muito bem ao que se propõem.

The 1st – Willow

Quem ouve essa belezura de álbum da Willow (Smith) até se assusta ao lembrar dela bombando em 2010 com “I Whip My Hair”. Mais acústico que seu primeiro álbum (o também excelente Ardopithecus, de 2015), Willow confidenciou aos ouvintes suas aflições adolescentes (17 anos completados no dia do lançamento do álbum, 1/10) com muita calma, surpresas e com ainda mais consciência de sua belíssima e forte voz.

The Witch – Pumarosa

É minha obrigação moral enaltecer esse disco: um dos registros mais originais desse ano, com músicas que vão da sonoridade gótica-nada-suave de Siouxsie & The Banshees até a cena eletrônica underground londrina do Primal Scream. Tem feminismo, tem amizade, tem admiração (Priestess é uma homenagem à Fernanda, irmã da vocalista Isabel) e só tem música boa nesse também álbum de estreia dessa banda inglesa que entrou na roda pra jogar bem sério.

Totem – Cancer

Cota bad da lista: a banda dinamarquesa vai te levar pros cantos frios de seu país e te deixar lá chorando com suas letras, suas vozes que sobem e descem com a maior facilidade do mundo e seus arranjos que não têm outra finalidade senão te fazer encostar a cabeça na janela do ônibus e refletir sobre a vida. Parece exagero, mas não é. Sente só:

Zamba Puta – La Lá

A peruana Giovanna Núñez traz um som que poderia perfeitamente ser encaixado na MPB. Ela e sua magnífica banda misturam o espanhol com o inglês e com o português e que criam no ouvinte a constante sensação de sorriso, brisa fresca e cheiro de terra molhada, mesmo que tratando sobre temas espinhosos como amor e a violência de gênero. Fora que a vontade de dançar vem irresistível. O disco todo é um banquete que não se nega e se repete quantas vezes der – e dá pra repetir muitas vezes. Certamente uma das maiores pérolas desse ano.

 

Eu tenho quase certeza de que esqueci algum. Foram muitos álbuns bem interessantes. O mundo é grande, graças a Deus, então a oferta é muito boa. Pra eu não ficar com a consciência pesada, eu criei logo no início do ano essa playlist com os discos que eu fui curtindo durante o ano – spoiler alert: ainda vou falar sobre umas músicas que também ficaram perdidas e sobre os lançamentos brasileiros do ano. Segura!