Uma coisa que me dói muito e me aperta o coração é ver mulheres minimizando as dores de outras mulheres. Infelizmente, essa é uma realidade cruel que a gente vê toda vez que surge uma notícia sobre aborto, sobre assédio, sobre estupro, sobre qualquer violência direcionada exclusiva ou majoritariamente a mulheres. E é por isso que eu não entendo a banalização do sofrimento feminino por outras mulheres: a única coisa que todas as mulheres do mundo têm em comum é a violência que sofrem (claro que em graus diferentes, mas ainda assim toda mulher está sujeita a sofrer violência de sexo).

A cada notícia publicada sobre uma mulher estuprada, tenho o desprazer de ver mulheres repetindo discursos no mínimo muito insensíveis, reproduzindo ideias nocivas a nós mesmas. O que acontece é que eu já espero uma reação cruel de homens a respeito de mulheres violentadas, mas as mulheres precisam se unir, precisam parar de se colocar umas contra as outras. E isso se repete não apenas em notícias sobre casos de estupro como também em outros casos como assédio sexual, moral ou verbal; casos sobre mulheres que abortaram; casos de violência física ou psicológica, e tantas outras violências direcionadas exclusivamente a mulheres.

Meu questionamento aqui é: por que isso acontece? Estaria a misoginia tão internalizada e entranhada na nossa socialização que nos tornamos imunes e insensíveis às dores de outras mulheres? Não é uma questão de sentir pena, é uma questão de identificação, é uma questão de compaixão, é uma questão de associação – por que condenamos tanto outras mulheres se estamos todas sujeitas a sofrer a mesma violência?

Quando falamos sobre violência contra a mulher deveria predominar a máxima: poderia ter sido eu. Porque, de fato, poderia ter sido! Vou jogar aqui alguns dados nacionais sobre a violência contra a mulher: a cada 100 mil mulheres brasileiras, 5 são assassinadas, e essa taxa coloca o Brasil em 5º lugar no ranking internacional de feminicídio; em dez anos, a taxa de assassinato de mulheres negras aumentou mais de 50%; 89% das vítimas de violência sexual no nosso país são mulheres, sendo 70% dessas vítimas crianças ou adolescentes; 70% dos casos de estupro são cometidos por parentes, namorados, maridos ou amigos próximos da vítima; uma em cada cinco mulheres admite já ter sofrido violência dentro de casa e 26% dessas mulheres ainda convivem com seus agressores; além disso, 5 mulheres são agredidas a cada 2 minutos no Brasil.

Esses são apenas alguns dados sobre a violência de sexo no Brasil e existe uma margem de erro grande, uma vez que muitas mulheres não denunciam seus agressores por medo de retaliação, intimidação e mesmo medo de não serem levadas a sério. Ou seja, a violência contra a mulher no nosso país existe em uma escala muito mais ampla do que os dados conseguem medir, até porque muitas mulheres também sofrem violência não-física, ou seja, violência verbal e psicológica, que é mais difícil ainda de ser medida.

Num país onde os índices de violência de gênero são tão altos, me espanta e me parte o coração ver que muitas mulheres ainda não conseguem se sensibilizar com uma violência comum a todas nós. A gente percebe que o patriarcado deu certo quando vemos tantas mulheres incapazes de se identificarem com essas mulheres: somos criadas para duvidar de nós mesmas e de nossas semelhantes, somos criadas para não enxergar as violências às quais somos submetidas em escala sistêmica. Somos criadas não apenas para abaixar a cabeça quando somos agredidas como também para aplaudir e respaldar essas agressões. Ainda temos um caminho muito longo pela frente, mas ele seria muito menos árduo se pudéssemos contar com o amparo uma das outras.