Tem amiga que é meio família já. É aquela que te dá um descanso só com a presença. Ce respira fundo, sabe? Não precisa mais fingir que está feliz pra agradar, ou medir as palavras pra não magoar, ou puxar conversa fiada pra não estranhar. Tá tudo bem, tá tudo normal.

Uma delas é Alice. Não lembro quando a conheci pela primeira vez. Sei que foi na creche e que tínhamos mais ou menos quatro anos. Seguimos caminhos diferentes e anos depois nos reencontramos no mesmo colégio. Demoramos pra reatar a amizade, mas quando o fizemos, foi como se nunca tivéssemos parado.

Eu não era uma boa aluna, detestava praticamente todas as matérias, não fazia os deveres e nem estudava. Quando a situação ficava complicada, lá pras provas finais, etc, eu sentava a bunda na cadeira e virava noites. Alice nunca foi assim. Pensa numa pessoa regrada. E responsável. E interessada. E esforçada. Alice. Ela fazia o que eu sempre julguei impossível: estudava um pouquinho todos os dias, pra não deixar acumular. Ela fazia os deveres e os corrigia com afinco, prestando atenção aos erros, para nunca mais repeti-los. Sempre admirei Alice.

Nunca vou esquecer de um dia em que eu fui tomar açaí na praia a tarde numa véspera de prova e disse pra minha mãe que estava na casa de Alice estudando. Eis que eu recebo uma ligação de Alice desesperada “JULIA ASENJO onde você está? Sua mãe me ligou perguntando se podia falar com você!!!” “o que você disse?” “que cê estava no banheiro e que eu ia falar pra você ligar de volta. ONDE VOCE ESTA?”. Sempre gostei que Alice me chamava pelo nome todo (ela faz isso até hoje).

Da mesma forma que ela se dedicava aos estudos, ela se dedicava às suas amizades. Ela queria saber t-u-d-o. Como tinha sido nosso dia, o que estávamos fazendo, como foi o passeio de bike ou quem era o carinha x que estava tirando meu sono. Ela tem o dom do interesse, faz você se sentir importante. Todos seus pensamentos são válidos e relevantes. De verdade, você não sabe o que é se sentir valorizada até ter uma amiga como Alice. Até hoje é assim. Um texto meu é só um texto, até Alice o ler.

Ah, outra coisa, ela não julga. Mais um dos motivos que a faz ser tão confortável e aconchegante. Você pode fazer uma merda colossal, contar pra ela aos prantos, que ela vai olhar e dizer “é, não foi legal, mas tudo bem agora bola pra frente que vai dar tudo certo”. E eu posso não acreditar que as coisas vão funcionar, mas acima de tudo acredito em Alice.

Quando fomos para a faculdade a amizade deu uma mexida. Não por culpa dela, claro, mas por minha causa. Fiquei deslumbrada com as pessoas que tinham tantas afinidades comigo, assistíamos os mesmos filmes e escutávamos os mesmos discos, e me afastei de Alice. E quando eu percebi a burrada, ela tava lá ainda, meio puta, com razão, mas lá. O contrário não ocorreu. Ela fez amigas novas na faculdade, poucas, e sua lealdade e atenção às amigas “antigas” se manteve sempre forte. Como não admirar Alice?

Depois dessa época infeliz nunca mais duvidei de nós duas. Eu acredito que todo mundo tem a sua Alice. As vezes até mais de uma, se você tiver a sorte que eu tenho. E acredito que, como eu, nem sempre damos o devido valor à elas, então que esse texto fique como agradecimento para essas pessoas. Nossos respiros. Afinal, não da pra viver feliz sem eles, no meu caso, sem elas.