Em contrapartida ao movimento grunge, surgido nos anos 90 nos EUA, o mundo assistiu também ao surgimento do britpop, movimento musical britânico que fez eco em todos os cantos e rádios do planeta. Mais influenciado pelas bandas britânicas dos anos 60 e 70 (The Beatles, The Rolling Stones, The Kinks…), o britpop lançou bandas importantíssimas como Oasis, Blur e Radiohead, influentes e consagradíssimas tanto pela crítica quanto pelo público quase religioso.

Uma banda que não chegou a alcançar um sucesso tão expressivo foi The Verve. Foram três álbuns lançados nos anos 90 (A Storm in Heaven, de 1993; A Nothern Soul, de 1995; Urban Hymns, de 1997) e um em 2008 (Forth), que saiu depois de um hiato de oito anos. O grande lance é: a não-expressividade do sucesso não impediu a existência de alguns marcos.

Hoje vou falar do Urban Hymns, que faz 20 anos em 2017 e que dá prazer pra qualquer amante da música.

O álbum já começa com porrada: “Bittersweet Symphony” é o maior sucesso da carreira da banda e dificilmente passou despercebida na sua vida. É uma daquelas várias músicas que você já ouviu, mas não sabe o nome, não sabe quem canta, não sabe nada – a lista é longa. Dá uma escutada, veja o clipe e me diz se num tem uns dias que dá vontade de ligar 0 f**a-se e sair esbarrando em todo mundo, subindo nos carros mal parados e tudo mais.

“Sonnet” e “Space and Time” são as baladinhas melancólicas sobre (des)amores frustrados do álbum, característica forte do britpop (como não lembrar de “Stop Crying Your Heart Out”, do Oasis, tocando no final de Efeito Borboleta?). O que dá até um certo incômodo, porque elas têm arranjos tão bonitos e são cantadas com tanta emoção que você termina de ouvi-las querendo que elas sejam verdadeiras declarações de amor.

Talvez os “hinos urbanos” flertem com a dinâmica louca que é viver na cidade e tudo o que isso acarreta na vida de um indivíduo: exigências sociais, constantes oscilações emocionais, depressão… “Rolling People” e “Weeping Willow” falam disso e da urgência de se viver a vida cada dia como se fosse o último – e não exatamente de uma maneira romântica, e sim sombria tanto nas letras quanto nas escuras melodias.

Fios de esperança: na segunda metade do álbum, a cabeça sai de debaixo d’água, puxa o ar e cria fôlego. A busca por si próprio da belíssima “Lucky Man”, que anima e vibra com um arranjo de violinos quase épico; o pé no chão otimista que é “One Day”, que abre a mente para várias possibilidades; “This Time”, que chega pra reconhecer que o passado é assunto pra ele próprio e que o agora pode ser o momento certo pra brilhar.

“Come On” é a que mais dialoga com os trabalhos anteriores da banda e serve como um excelente convite pra escutar o que mais ela pode oferecer. O poder libertador da música aparece tanto nas letras quanto nas guitarras nostálgicas e na bateria incansável que preenchem cada possível espaço em branco – o álbum “A Northern Soul” é exatamente isso.

É uma pena que a banda tenha se separado. Mas tudo bem, porque bons projetos surgiram. Richard Ashcroft, o vocalista, já deixou quatro álbuns na carreira solo; o guitarrista Nick McCabe e o baixista Simon Jones se uniram a outros músicos pra formar a banda Black Submarine, que lançou apenas um disco chamado New Shores, em 2014, que também vale a pena conferir.

Curtiu? Curtiu mesmo? Então volta mais tarde que tem mais.