“Eu passo muito tempo pensando em como eu posso mudar as coisas. Eu sinto que a mudança é a primeira coisa que nós, como humanos, ou amamos ou odiamos. Sem meio termo. Eu escolhi amar a mudança. Ela me desafia mentalmente, emocionalmente e espiritualmente.”

É assim que Kai Wright, mais conhecido como Sango, se apresenta em seu site oficial. O produtor e DJ americano tem 25 anos e nada mais, nada menos do que DOZE álbuns lançados, fora três EPs.

Sango procura não se encaixar ou se prender a gêneros, preferindo deixar essa missão pro seu ouvinte. Mas ele é um daqueles curiosos que exploram tudo o que a música tem a oferece, independente de onde ela possa vir, o que deixa seu trabalho muito diversificado. O cara pega inspirações no hip hop, no soul, na música gospel e no funk carioca pra samplear (recortar e usar trechos de músicas já existentes numa nova faixa) e bolar algumas batidas novas… e o resto é vibe.

Enquanto tem uma galera retrógrada aqui nas terras tupiniquins, pro Sango o contato com o funk foi um divisor de águas.

A fase AF (Antes do Funk) conta com cinco álbuns e um EP lançados em ritmo frenético entre dezembro de 2010 e fevereiro de 2012. Orquestrar as dezenas de batidas eletrônicas pra montar uma ambiência leve e sonoramente confortável não é uma missão fácil, mas ele consegue resolver isso com maestria e usando a ideia de que às vezes “menos é mais”. Super indico os álbuns “Sounds of Chimera”, “There’s Eugene”, que é um resgate às suas memórias de infância, e “As Always”, que tem samples que vão de Kool & The Gang a Tame Impala (que segue abaixo).

A fase DF, que é o real motivo de eu estar escrevendo esse texto, começa depois que ele jogou Call of Duty no cenário “Favela”, que o jogo diz se passar na Rocinha. Dali pra ele bater papo online com brasileiros e descobrir o funk carioca foi um pulo. Dessa troca nasceram três volumes de “Na Rocinha”. O nome é em homenagem à favela que ele achava que tinha dado origem aos bailes funk no Rio de Janeiro – na verdade, eles nasceram no subúrbio carioca na década de 80; já as músicas são belas homenagens aos próprios bailes.

E é impossível não entrar na onda: o cara lança a batida e do nada o tchugudjá tá na reverberando na tua cabeça de uma maneira até então impensável. No primeiro volume, ele ainda tá cru e o som sai mais funk do que Sango, por mais que haja a “The Differences” (que recorta o Jônatas da nova geração); no segundo você já sente as batidas do cara entrando mais fortes e fazendo um fundo mais original pros samples já clássicos do funk carioca (MC Pocahontas, Gaiola das Popozudas, Bonde da Oskley e vários outros); no terceiro volume, (único disponível no Spotify) que conta só com 5 músicas, Sango transcende e bota até trechos de entrevistas que resgatam a influência africana no tamborzão do funk.

Até mesmo o último trabalho do DJ, o álbum “De Mim, Pra Você”, lançado em março desse ano, tá cheio de influência do morro carioca. Talvez a sua primeira viagem pelo Brasil, que rolou em 2016 (depois de ele já ter lançado dois dos três “Na Rocinha”) tenha o marcado de maneira mais profunda do que ele previa. O tchugudjá não abandona nenhuma das novas faixas e dá um ar de funk até mesmo pra versão acelerada de “Eu Te Devoro”, do mestre Djavan.

Dá uma olhada na viagem do cara pelo Brasil e veja só como a Fosfobox foi á loucura com o set dele:

Bom, né?