Os deuses nos deram algumas das capacidades mais transformadoras e bonitas que se podem achar. Nos deram lugares para sonhar, momentos para viver, pessoas para amar… tudo isso e mais trocentas coisas que nos fazem ser quem somos. Cada um com sua individualidade, com suas próprias experiências, cargas emocionais, o que faz com que cada um seja um mosaico em que cada elemento ganhe a sua própria cor, tamanho, brilho e importância.

Somos mosaicos e temos nossas próprias cores – e devemos cada vez mais abraça-las.

Frente a essa onda conservadora que vem querendo pintar todos nós de cinza, pedi pra alguns amigos que fazem parte da Comunidade LGBT pra falarem de alguma música que tenha sido importante pra eles de alguma maneira: se tiver marcado algum momento de autoconhecimento e aceitação, algum momento importante do relacionamento que têm ou algo que tenha marcado a própria relação com a sexualidade. Sem muito mais enrolação, seguem os relatos:

Dani Villanova, produtora, 26 anos (L)

No colégio, fiz uma grande amizade, daquelas que anda grudada em você o dia todo. Mas só dois anos depois, entendi que minha melhor amiga era também a protagonista dos meus sonhos e dos meus desejos, responsável pelas minhas angústias de adolescente e pelos melhores sentimentos da minha vida. No início, eu não sabia se era certo ou comum – talvez fosse só a tal da “fase”. Mas eu sabia que era forte, era sufocante, era protetor e era amor.

A diferença é que o meu amor não era permitido. O meu amor devia ser limado, extinguido, ou no mínimo guardado em segredo. O meu amor firmou compromisso numa troca de anéis no banheiro da escola, porque era o lugar mais seguro pra isso. O meu amor não foi anunciado pra toda família, por medo de perder o porto seguro. O meu amor é reduzido a fetiche e foi ameaçado por adolescentes autocentrados que disseram ser falta de pica. O meu amor não andava de mãos dadas, evitava trocar olhares e nunca era chamado de “amor” na frente das outras pessoas.

Às vezes eu queria fugir. Fugir dos outros, fugir das regras. Eu não sei qual era a angústia que afligia Amy Lee quando ela compôs “Anywhere”, mas pude sentir que ela também queria fugir. De alguma forma, essa música me ajudou a entender que não tinha nada de errado comigo. Eu só queria poder viver o que eu sentia tão forte, tão verdadeiro, tão bonito – por quê não? E se precisar, fuja! – ela dizia. Em algum lugar por aí o amor não precisa de razão pra existir. Obrigada, Amy Lee, por me mostrar que a culpa é de quem coloca o amor pra baixo, não de quem ama.

Felipe Trotte, estudante de Física, 21 anos (G)

Olha, pra ser bem sincero eu poderia passar um dia inteiro citando canções e artistas que me inspiraram a me tornar o que eu sou hoje, e me ajudaram a ter essa conversa íntima nessa fase de descoberta. Passando por todas aquelas canções mais famosas, do pop ao rock,  que todos conhecem, resolvi falar de uma em especial porque acho que muita gente nem lembra dela hoje em dia, mas acredito que leva uma mensagem poderosíssima. 

A música é The Best Thing About Me Is You do Ricky Martin. Eu lembro bem da época em que foi lançada, e da força que isso teve pra mim.

Na real, eu nem sabia direito quem era ele. Sabia que existia, e que era considerado um galã da mídia, mas não era uma figura que eu me lembrava muito.

Acontece que Ricky Martin assumiu sua homossexualidade (não lembro o ano), e com isso se tornou notícia na mídia (como sempre rs). Eu consigo imaginar muito bem a pressão e a crítica que ele deve ter sofrido.

Logo em seguida, ele lança essa música que fala basicamente sobre você mudar a forma como se enxerga e sobre uma auto aceitação. Na época, eu sentia uma energia muito boa na música, mas não fazia ideia de quão poderosa poderia ser.

Ao longo do meu amadurecimento, pude entender que durante a música ele descreve processos na vida dele em que é fácil associar a uma pessoa “saindo do armário”. Todo o peso que a gente carrega, as ofensas e absurdos que fazemos a nós mesmos por pura ignorância e principalmente a briga interna em querer negar nossa própria natureza.

Isso é tão importante, pois mostra o outro lado da moeda pra pessoas LGBT’s. Mostra que não precisamos conviver com esse pesadelo e esse peso nos atormentando no dia a dia. Fico mais feliz ainda em ver um homem que era considerado “galã-pegador-de-mulheres” ter a coragem de enfrentar literalmente o mundo na frente dele pra poder se sentir feliz.

Isso vem quando conseguimos entender somente uma coisa: o amor próprio.

Se as pessoas soubessem a importância desse sentimento, soubessem o quão forte alguém pode se tornar por causa disso, acho que não teríamos tantos casos de LGBT’s suicidando e negando sua sexualidade por uma imagem.

Duda Lessa, estudante de Arquitetura, 19 anos (L)namorada da Isabela

Não tinha como negar, por mais que eu tentasse esconder, dizer que não gostava de meninas, somente dela. Mas sim, por muito tempo, foi só ela na minha vida. Nós nos conhecemos e logo nos tornamos melhores amigas. Meus melhores dias eram os que eu não fazia nada do lado dela.

“You gotta know that this is real, baby

Why you wanna fight it?

It’s the one thing you can’t choose”

Namoramos. Com 15 anos, minha melhor amiga se tornava a mulher com quem eu iria compartilhar minhas descobertas, minhas aflições, dúvidas e prazeres na descoberta do meu eu e da minha sexualidade. Não poderia ter escolhido alguém melhor para estar do meu lado.

Meu Skype toca. Ela se arrumava pra uma festa de 15 anos. Eu estava ouvindo The Killers, porque tinha cismado com o álbum mais recente da época. Fazia tempo que essa música me machucava, porque o Skype era nossa única forma de contato depois que sua família descobriu nossa relação.

“I knew it when I met you

I’m not gonna let you runaway”

O tempo passou e toda nossa persistência de ficarmos juntas valeu a pena. E hoje, toda vez que olho pra ela, penso em como escolhi a pessoa certa para compartilhar uma história.

Isabela Costa, estudante de Nutrição, 19 anos (B)namorada da Duda

Eu não queria continuar com aquela situação. Eu tinha bastante medo, menina de 15 anos, estudava em colégio católico, não tinha referência nenhuma de amigos LGBTs, parentes LGBTs e nunca tinha me visto assim, de fato. Quando começamos a ficar, eu determinei um prazo. O primeiro beijo foi 17 de janeiro. Até a minha volta às aulas a gente ficava, depois as coisas voltavam como eram, a gente se divertia e não perdia a amizade. Dia 5 de fevereiro. O tempo foi passando, as experiências eram divertidas, novas, era uma descoberta pra nós duas.

Chegou o dia 4 e nós íamos ao cinema. Eu estava ciente de que aquela seria a última vez em que ficaríamos juntas daquele jeito. Mas não estava triste, era o combinado. Ela tentou argumentar, perguntou se era isso mesmo que eu queria, disse que sim. Eu fiquei no meu quarto e comecei a ouvir Cássia Eller, ela foi pra minha varanda chorar. “Ando por aí querendo te encontrar, em cada esquina paro em cada olhar…”

 – Você tá me zoando, né? Você não pode terminar comigo assim, colocar uma música dessas e achar que vai ficar tudo tranquilo, achar que eu vou ficar bem.

– Alguém postou no Facebook, eu só dei play…

– Não, cara, não dá.

Ela chorava. Eu não queria que ela sofresse, não por mim. Decidimos sair, tentar distrair a cabeça, resolvemos ir ao cinema como tínhamos combinado. Sentamos numa das mesas da praça de alimentação para decidirmos a nossa vida. Não decidimos. Eu não tive coragem de acabar e fazê-la sofrer, por mais que eu tivesse medo.

4 anos e 8 meses depois estamos aqui, juntas, às vezes com medo, enfrentando problemas sim, mas nos amando sem dar satisfação a ninguém.

 

 (Nem tem muito mais o que falar, né? O Amor fala por si só.)