Acostumada a usar peças do guarda roupa da avó desde a infância, a Designer de Moda Maria Clara Iório conta que a ação de garimpar peças em brechós, e, posteriormente, refazê-las se transformou em negócio apenas em 2015. Antes do nascimento do , seu ateliê, Maria já re-significava peças mesmo sem saber o conceito de upcyling – definido como processo que transforma resíduos ou produtos inutilizáveis em novos materiais de valor-. Há dois anos no mercado, o ateliê nasceu como forma de externalizar as criações da designer carioca, mesclando peças exclusivas e atemporais, mas sem abrir mão da memória vintage das roupas.

Quando vai atrás da matéria-prima Maria Clara confessa que não sai com ideias pré-definidas “Olha, não tem muito mistério. Costumo ir à brechós e bazares de igreja mesmo. Eu olho a roupa e vejo um potencial, é um feeling. A ideia de como será o produto final vem com o tempo.” Para a designer, tecidos bons, a exemplo da seda, chamam a atenção.

Passo a passo da transformação

O processo de transformação das peças começa com a curadoria, passando pela lavagem, apropriação das roupas e nascimento de uma nova criação. Como as peças passam por várias fases, características como cor e modelagem geralmente sofrem bastante alteração, porém, a marca tenta preservar a memória delas.

Na preparação para a lavagem, as antigas etiquetas são retiradas e, para Maria, esse momento é um dos mais importantes, porque funciona como uma espécie de nascimento de uma peça que já não tinha mais utilidade, ou seja, vida: “o fato de desvincular a roupa a retirada da etiqueta funciona como processo de apropriação da peça. Aquilo era de uma marca, de uma outra pessoa e eu quero fazer daquilo uma roupa nova. Não é uma sobrevida, espécie de reaproveitamento, eu quero re fazer, fazer de novo”.

Falar de sustentabilidade para consumidores acostumados com fast fashion é um ato político

O Slow fashion como estilo de vida: a tendência dá lugar a exclusividade

Quem tem um pouco de conhecimento sobre o processo de criação de qualquer peça e de todo caminho que é feito que elas cheguem às lojas, há de convir que para uma roupa ter um preço muito baixo, algumas das partes perdem. Desde a compra da matéria-prima, confecção, aluguel da loja, impostos, etc, isso sem falar no custo do processo criativo, são custos que o consumidor final precisa ter a consciência que existe ao adquirir um produto. Dessa maneira, ao comprar uma peça muito barata, algumas das partes do processo citado anteriormente vai sofrer uma perda, seja na qualidade do tecido ou pagamento dos profissionais.

Embora esse mercado não tenha uma lógica tão demarcada assim, é preciso que repensemos nas consequências de comprarmos coisas muito baratas achando que estamos levando vantagem, mas, na verdade, estamos financiando um mercado que está sendo desvantajoso para alguém. Ao adquirirmos produtos de baixa qualidade, estaremos gerando lixo muito rapidamente, já que a vida útil daquela roupa, sapato, acessório é muito baixa. O questionamento que fica é: vale a pena?

Com essa bandeira, o ateliê Nó faz a cabeça daqueles que curtem peças exclusivas com tecido de qualidade e informação de Moda. Lá, a tendência não é o chamariz nem tem essa pretensão. “É muito gratificante para mim, que fiz Moda, saber que não entrei nessa engrenagem de fazer coisas e vendê-las, convencendo as pessoas que elas precisam daquilo. Quando eu conseguir fazer isso, uma cadeia na qual eu acredito em todas as partes do processo é incrível.”, conta a designer. “Falar de sustentabilidade para consumidores acostumados com fast fashion é um ato político.”, completa Maria.

O preconceito ainda é uma barreira a ser transposta

O Nó tem suas peças expostas em feiras e eventos de Moda na capital do Rio, onde pessoas podem experimentar as criações. Com cartela de cores variadas e estampas exclusivas, maria lança mão de materiais como linho e seda e, para sair do óbvio, acrescenta complementos como botões, bordados e tingimento às peças. “Tecidos de fibras naturais são muito mais benéficos para o consumidor, sem contar que o poliéster, matéria prima de muitas roupas, é derivado do petróleo”, justifica a designer.

Foto: Betina Monte-Mór

A carioca de 25 anos ainda enfrenta dificuldades na hora de vender as peças e acredita que isso tenha relação com o preconceito do brasileiros com roupas de brechó, que ainda são lugares mal vistos no Brasil, Por mais que tenham passado por higienização e tenham nova modelagem, as roupas nem sempre têm a adesão pretendida. É necessária uma educação do consumidor.

Por não entenderem como funciona o processo criativo das peças de upcycling e mesmo as de slow fashion, as pessoas não tem noção da dimensão do trabalho envolvido nos bastidores. Maria Clara conta que umas das peças que mais modificou foi um blazer de tamanho 48 que se transformou em um vestido tamanho P de decote profundo.

Novos caminhos

Para se aprimorar, a designer e dona do ateliê vai para Itália estudar Moda sustentável. Maria, volte logo para nos presentear com suas criações. Estamos esperando por você.