Pelo menos uma vez por dia eu dou de cara com alguma noticia sobre um caso de feminicídio, seja na TV, numa mídia impressa ou na timeline de alguma rede social. Não dá pra fugir, é rotina. Ver isso em uma base diária me deixa muito mal, mas a reação pública que acompanha essas notícias é uma das coisas que mais me preocupa de verdade, porque é nessa reação da grande massa que a gente vê refletido o pensamento popular – querendo ou não, são essas pessoas que dizem pra gente o que a grande maioria pensa.

Muita gente me pergunta por que eu leio os comentários se eu já estou cansada de saber que dali não tem como sair muita coisa boa. Bom, eu leio os comentários porque, como feminista e ativista dos direitos das mulheres, eu preciso saber o que as pessoas pensam quando se deparam com fatos, casos e dados sobre a violência contra mulheres. Eu preciso saber e preciso procurar entender, por mais difícil que seja esse entendimento, o que essas pessoas acham e o que elas absorvem toda vez que se deparam com essa violência descarada sendo noticiada.

Os principais pontos que me chamaram a atenção em várias leituras de comentários de notícias diferentes foram 1) existem muitas pessoas que fazem piadas com casos de estupro e feminicídio, 2) essas mesmas pessoas também costumam diminuir a gravidade dessa violência e 3) a grande maioria dessas pessoas sente mais raiva de quem aponta a violência do que de quem a comete de fato. Apesar de a maioria desses comentaristas serem homens, existe uma quantidade relativamente significativa de mulheres cujos comentários se encaixam dentro de pelo menos um desses três pontos.

Esses homens, por exemplo, não acreditam que mulheres sejam estupradas sistematicamente no Brasil. Que realidade confortável essa onde você pode se dar ao luxo de não acreditar na realidade que amedronta mulheres no país inteiro.

Esse rapaz aqui, Allan, acha que a violência contra mulheres não é tão ruim assim, que os homens precisam de força para lidar com… com o quê mesmo?

 

O Renan Vicente, do alto do seu pedestal de (falta de) conhecimento já vai aos comentários esclarecer para todos que feminicídio não existe. As taxas astronômicas de violência contra mulher, para o Renan, pouco importam.                       

O que poderia explicar esse tipo de reação? Para essas pessoas, não importa que no Brasil uma mulher seja vítima de feminicídio a cada hora e meia, não importa que os maiores agentes desses crimes sejam homens familiares, amigos ou companheiros das vítimas, para essas pessoas não importa que homens assediem, violentem, estuprem e matem mulheres. Para essas pessoas nada disso importa, tudo isso pode ser relevado, tudo isso faz parte de um crime normal, de uma violência comum e sem nenhuma especificidade. Essas pessoas não enxergam a violência muito específica direcionada apenas a uma parcela da população: a parcela feminina.

Além de não enxergarem (ou de se recusarem a enxergar), é sintomática a maneira como se dão essas reações: são comentários carregando um tom acusatório contra as pessoas que ousam classificar a violência contra a mulher como tal. São comentários que tentam desqualificar e diminuir essa violência, que procura igualar, por exemplo, um latrocínio (roubo seguido de morte) com o assassinato em massa de mulheres pelo único e exclusivo motivo de serem mulheres. Ou seja, além de se prenderem na própria ignorância, esses indivíduos ainda fazem o desserviço de tentar passar essa concepção deturpada para outras pessoas.

Quando você vê uma notícia sobre uma mulher que foi morta pelo ex-marido, você vê também essas pessoas destilando palavras de ódio contra feministas e qualquer outra pessoa que se atreva a apontar que aquela violência noticiada bem ali, diante dos seus olhos, seja um feminicídio. Nenhuma dessas pessoas demonstra qualquer indignação que seja com o crime de fato, e isso é a maior prova de que a misoginia é real e muito palpável, podendo se materializar tanto na forma de um feminicídio de fato quanto de comentários misóginos na internet.