Antes de começar a escrever essa matéria, tem de se levar em conta toda a intimidade crua que constitui o que é a Ombu, power trio paulistano de post-rock.

Existem momentos na música que tudo parece ter a mesma sonoridade, como se uma máscara cobrisse a real intenção por trás de tudo aquilo e faz com a gente se pergunte “mas eu já não ouvi isso em algum lugar ? “. Partindo disso, a nudez da Ombu se destaca em meio à parafernália de efeitos e mecanismos que todo mundo faz. O resto é barulho, alguém disse uma vez.

Formada por João Viegas (baixo e voz) , Santiago Mazzoli (guitarra) e Thiago Barros (bateria), a Ombu desabrocha na famigerada cena paulistana com 3 EPs – o mais recente, Pedro, lançado em junho desse ano. A vibe da Ombu é permeada por um baixo e guitarra bem marcados, e a voz suave de João que te deixa flutuando num mar de vapor, numa onda que lembra Terno Rei e os gringos do Homeshake. É muito fácil adentrar as camadas de som e sentir algo que é difícil de se nomear, um sentimento que não existiria sem a total entrega do ouvinte à proposta da Ombu.

A Ombu começou de uma forma quase cotidiana com três amigos que se conheceram durante o colégio e que começaram a fazer um som, ganhando cada vez mais espaço por abrirem shows da já citada Terno Rei, o finado Rancore e de participarem de festivais como o recente Balaclava Fest, tocando com a consagrada banda do reduto indie, Yuck, e os canadenses do Tops.  Há um ponto de encontro entre a nudez post-rock da Ombu e um teor meio dreamy, o que não deixa o som cair numa melancolia extrema e nem que seja algo inteiramente lúdico.

A sensorialidade é ponto chave no som da Ombu, juntamente com a importância de suas letras bem construídas com força poética absurda. As músicas funcionam como um mantra, onde quem ouve sente-se compelido a submergir num mundo quase psicodélico, mas com uma força consciente em stand-by. Presente no EP Pedro, a maravilhosa “Sem Mais” confessa atentamente enquanto menciona todos os detalhes sutis de uma existência que ganha força com as características de quem inspirou essa poesia-mantra “Ao caminhar rodamos do começo ao fim, sem mais, sem mais / Só a sua sina seguindo a estrada chamando atenção “. Ou ainda em “Surdina”, presente no EP Mulher (2015), onde é impossível não criar um corpo para a musa retratada na canção : “Se eu pudesse vaguear o seu rosto / Tudo que venho cultivando vem do seu olhar/ No silêncio “. 

A tendência minimalista de Ombu é um respiro pros dias onde tudo parece acelerado demais. Um convite à simplicidade e sinceridade de cada mínima coisa que cerca o dia-a-dia, que vão desde os detalhes de um rosto comum à nós, e passam por um existencialismo sobre os níveis de nossas experiências. Ombu é catártico, filosófico e estranhamente familiar, como se a banda passasse uma semana com a gente e entregasse uma carta sobre tudo o que achou. Partindo disso, é nosso dever como fãs de boa música  abrir às portas de casa para que toda a verdade crua de Ombu inunde nosso ambiente, sempre provando a máxima de menos é mais.