Estou nesta mesma posição ao que parece ser horas. Sentada no chão do quarto, encostada na lateral da cama.

A janela está aberta e a brisa que entra é fria. Estou arrepiada, vestindo apenas um blusão, mas não tive coragem de fechá-la. A noite se faz escura demais, do lado de fora. Cai como um manto negro sobre todos os prédios.

De onde estou, consigo contar uma, duas… cinco estrelas no céu.

Fotografias e alguns de meus escritos estão espalhadas por todo o carpete do quarto. Não fiz a cama esta manhã, então meus lençóis ainda são um emaranhado de tecido branco sobre a minha cama.

Estou alternando o olhar das fotografias para o céu escuro lá fora.

A solidão se rasteja sob a minha pele. A sinto crescer, ganhando espaço, sugando minha força.

O nome dele se espreguiça na minha garganta, querendo sair, lutando desesperadamente para sair. Estico um dos braços em direção aos lençóis e procuro o telefone.

Quero discar.

Não quero discar.

Permito que meus dedos caminhem sobre os números na tela.

Mas não ligo.

Eu disse que não ligaria.

Meu cigarro não dura o tempo que eu gostaria. Ergo o braço para alcançar o maço na mesinha de centro.

Estou sentado no chão da sala de estar, e já passa das 1h da manhã.

Não consigo dormir, por mais que eu queira.

Mais uma dose daquela bebida amarga que achei no fundo de um dos armários da cozinha. Ela desce queimando minha garganta.

Não consigo evitar olhar para a porta entreaberta do quarto. Não consigo evitar desejar que ela saia por aquela porta me chamando para a cama, dizendo que está tarde demais e que os lençóis estão frios sem mim.

Fecho os olhos com força e afasto as lembranças.

Meu celular está silencioso, como nunca esteve antes. O encaro por um tempo antes de pegá-lo. Estou prestes a discar o número dela, mas paro. Talvez ela não esteja sentindo minha falta.

Talvez ela esteja melhor sem mim.

Outra dose de bebida, e jogo o celular para o outro lado da sala.

Não vou ligar.

Eu disse que não ligaria.

Já passa de 1h da manhã, mas ainda não consigo fechar os olhos sem que a imagem dele roube meus pensamentos, mandando embora todo o meu sossego.

Nunca vou conseguir dormir desse jeito.

Escondo meu rosto no travesseiro, e me concentro na sensação dos lençóis roçando na minha pele. Estou coberta, mas ainda sinto frio. Me sinto como se estivesse congelada, de dentro para fora.

Nada adianta.

Ergo o rosto do travesseiro e encaro meu telefone no chão.

O silêncio grita nos meus ouvidos a ausência dele. Minha lembrança resgata o som da risada dele ecoando por essas paredes rabiscadas. Solto um grunhido involuntário quando afundo o rosto contra a fronha branca de novo.

E grito. Grito por todas as palavras que eu queria gritar para ele agora. Grito porque estou perdendo o controle, não consigo lutar mais contra isso.

Sei que estou chorando, mas não sinto. Simplesmente choro, deixo que os soluços sacudam meus ossos. Deixo que as lágrimas umedeçam o tecido da fronha.

Grito mais uma vez, e não me reconheço na voz que sai de minha garganta. Pareço um animal ferido.

Onde foi parar minha sanidade?

Grito novamente.

Grito porque quero ligar, mas não ligo.

Eu disse que não ligaria.

Acendo outro cigarro.

A bebida acabou, e estou sentindo aquela sensação familiar de perder o controle sobre meus próprios sentidos. Permito que me preencha, que me tome por completo, que me arraste para longe das lembranças.

Mas a embriaguez não é capaz de me levar por completo.

Ainda sou capaz de ouvir os passos leves dela pela sala, ainda a ouço cantar mal no chuveiro, ainda a ouço rir das minhas piadas sem graça.

Será que estou ficando louco?

Há dias, ela não entra por aquela porta.

Arremesso o copo contra a madeira escura da porta do meu apartamento e ouço o vidro se partir em milhões de pedaços.

A destruição me conforta no meio do caos em que me tornei.

Não consigo me equilibrar direito enquanto me arrasto para o banheiro. Sem tirar nenhuma peça de roupa, me coloco embaixo do jato de água fria. O choque da água contra a minha pele quente me pega de supresa, e solto um grunhido.

Soco a parede do box repetidas vezes até que a dor física anule o vazio que se instaurou em mim. Não há nada que eu possa fazer, então me permito chorar em silêncio.

Sei como fazer isso parar, mas me recuso a buscar o celular na sala.

Me recuso a procurá-la.

Eu disse que não ligaria.

No final das contas, acho que prefiro essa dor do que o vazio. Prefiro estar ferida a não sentir absolutamente nada.

A madrugada se faz longa. Mal posso esperar para que o sol nasça e eu seja forçada para fora dessa cama. Mas ainda estou aqui, com os joelhos dobrados em posição fetal, lutando para aquecer meu corpo.

Mas é inútil.

O frio que me consome é interno. Se espalha pelo meu corpo como o sangue que corre pelas minhas veias.

Silêncio.

Posso ouvir os sons das buzinas dos carros lá fora, o eco de risadas de bebâdos pela rua, mas aqui dentro não há nada. Nada que seja capaz de silenciar o som da buzina do carro dele lá embaixo quando ele chegava; o eco das nossas próprias risadas embriagadas, que minha lembrança insiste em trazer à tona.

Por que continuo lembrando dessas coisas? Por que insisto em me torturar?

Ah, claro… A dor é melhor que o vazio.

E eu não passo de uma sabotadora de mim mesma.

Olho para o relógio que me observa paciente, em cima da cômoda. O coloquei ao lado da minha máquina de escrever e agora os dois debocham de mim juntos.

O relógio, com seu tic tac lento, esfregando na minha cara todos os segundos desde que ele partiu. Minha máquina de escrever, em seu silêncio sepulcral, esfregando na minha cara que não sou capaz de usá-la sem ele. Não há palavra nenhuma que queira ser escrita quando ele não está por perto.

Estremeço.

Não consigo me lembrar por quê não fechei as janelas, meus pés estão gelados.

O ar frio é tão pesado que mal consigo respirar.

O celular me encara do carpete, mas não me movo. Meus músculos reclamariam, me puxariam de volta para a mesma posição.

Além do mais, não posso ligar.

Eu disse que não ligaria.

Me permito cogitar que talvez ela esteja pensando em mim. Essa ideia me conforta por um segundo, antes de mandá-la para longe.

Não consigo evitar buscar com o olhar cada palavra que ela rabiscou em minhas paredes.

Essa merda de silêncio vai acabar me enlouquecendo.

Caminho com passos arrastados até a cozinha, à procura de mais bebida.

Bato as portas dos armários com força.

Vazios.

Lá na sala, ouço o toque do meu celular.

Será que estou enlouquecendo ao ponto de ouvir coisas?

Me encosto na bancada da cozinha e escondo o rosto nas mãos, esperando que minha cabeça pare de me torturar.

O som cessa.

Respiro fundo.

Ouço novamente.

Abro os olhos e olho ao redor como se esperando que alguém me diga que não estou ouvindo coisas, que é ela quem está ligando.

O som continua.

Corro até a sala, desajeitado, esbarrando nos móveis pelo caminho.

Alcanço o celular no chão, mas é tarde demais.

Duas chamadas perdidas, diz a tela.

Arremesso longe, sem checar de quem era a ligação. Não suportaria que não fosse dela.

Penso em ligar de volta, e inventar uma desculpa para o caso de ela dizer que não ligou, e me condeno por ser tão idiota.

Eu disse que não ligaria.