O feminismo tem me decepcionado um pouco (para não dizer muito) ultimamente. Digo isso porque cada vez mais eu percebo que não representamos as mulheres que deveríamos representar. O feminismo parece ter se tornado um campo hostil para aquelas que deveriam ser nossa prioridade e isso é inaceitável. Mulheres negras, mulheres em situações de vulnerabilidade, mulheres neuroatípicas, mulheres que são mães, mulheres prostituídas, enfim, uma variedade de mulheres que deveríamos priorizar já não se sentem acolhidas pelo movimento. E o que isso quer dizer? Quer dizer que é tempo de fazermos uma autocrítica, mas uma autocrítica real e honesta. A quem serve o nosso feminismo?

Como feministas, temos a obrigação de questionar os modelos sociais do patriarcado, e dentro desses modelos sociais está a concepção de que toda mulher deve formar uma família – se casar, ter filhos, ser uma esposa e uma mãe. Pois bem, devemos combater esse modelo social com todas as forças, concordo plenamente, porém isso tem sido feito de uma maneira extremamente irresponsável e também muito insensível.

Muito se discute sobre heteronormatividade e maternidade compulsória – que são, sim, realidades femininas – mas pouco se discute sobre políticas e medidas que poderiam melhorar as vidas das centenas de milhares mães brasileiras, pouco se discute sobre licença paternidade e responsabilidade paterna. O feminismo é indispensável, mas anda muito irresponsável quando o assunto é priorizar pautas e demandas.

Ambientes ditos feministas têm se tornado lugares hostis para mães, que encontram uma certa dificuldade para colocar em pauta suas necessidades. A proposta childfree e questionamento da maternidade compulsória são assuntos de extrema importância e devem ser debatidos, mas muitas vezes esses debates acabam sendo insensíveis às realidades das mulheres que são mães.

Vamos aos fatos: mulheres são discriminadas pelo simples fato de serem, bem, mulheres. Agora, vamos adicionar um “agravante”: mulheres que são mães, principalmente aquelas que têm filhos pequenos, sofrem uma discriminação bem específica. Essas mães têm dificuldade para encontrar empregos, elas têm dificuldade para encontrar creches, elas têm dificuldade para amamentar em público, pois são discriminadas por isso também. Mulheres que são mães passam por desafios diários que nós, mulheres sem filhos, não temos nem ideia. Mulheres que são mães são cobradas todos os dias – além de mães, devem ser super heroínas também.

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Em entrevistas de emprego, homens raramente são questionados sobre filhos, enquanto mulheres recebem este tipo de questionamento sempre e, inclusive, isso se torna fator de decisão na hora da contratação de profissionais do sexo feminino. Nossas maternidades não são acolhedoras, o parto humanizado ainda é uma realidade muito distante da grande maioria das brasileiras, médicos são abusivos e a violência obstétrica é muito mais presente do que podemos imaginar.

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A maternidade é um desafio para as mulheres do início ao fim. Mães sofrem durante a gestação, sofrem durante o parto e sofrem posteriormente. Mães são cobradas o dobro, triplo, quádruplo de vezes que pais são cobrados. Mães perdem oportunidades simplesmente por serem mães, são negadas, são recusadas, são mandadas embora, são desencorajadas a seguirem qualquer caminho profissional. O feminismo precisa dar mais atenção à essas mulheres, o feminismo tem essa obrigação. Não estamos aqui para servir interesses individuais, estamos aqui para colocar em pauta necessidades coletivas e as necessidades das mães estão lá, quase esquecidas pelo movimento. Não podemos deixar isso acontecer. O feminismo tem um compromisso com as mães e devemos honrá-lo. Afinal, a quem serve o nosso feminismo?