Por um bom tempo eu comprei o discurso liberal da libertação sexual feminina, afinal de contas tomar símbolos de opressão e ressignificá-los, fazendo com que se tornassem símbolos de luta, parecia muito coerente e efetivo na minha cabeça. Embora o discurso da libertação sexual faça lá o seu sentido na teoria, é na prática que ele se revela.

Esse discurso encorajam mulheres a se afirmarem como seres sexuais e a tomar o controle sobre sua sexualidade. Parece ótimo, né? Como um discurso assim poderia dar errado? Bom, podemos começar pelo fato de que mulheres já são vistas como seres sexuais por homens, logo uma reafirmação disso não seria mais revolucionária do que é conformista. A sexualidade é uma condição inerentemente feminina, pois somos vistas como objetos sexuais e objetos reprodutivos.

Eu não me convenço mais por esse discurso que me diz que reafirmar minha posição de opressão é empoderador, porque eu não me sinto nem um pouco empoderada sendo chamada de vadia nem pelos homens, nem pelas minhas companheiras de luta, nem por ninguém. Eu não me sinto empoderada ao me afirmar como uma mulher sexualmente liberta, pois essa liberdade sexual que esse discurso prega simplesmente não existe no mesmo mundo que existimos.

Vamos ter uma conversa honesta sobre a sexualidade feminina levando em conta nosso contexto social patriarcal: mulheres são objetos sexuais que devem atender aos desejos masculinos e gerar filhos. Nossa posição social, enquanto seres humanos do sexo feminino, ainda é baseada na nossa serventia como objetos sexuais e máquinas de procriação. Como falar sobre liberdade sexual numa sociedade assim?

Quando falamos sobre liberdade sexual, precisamos fazer isso com honestidade e seriedade. Tentar transformar opressões seculares em atos empoderadores da noite pro dia, com um discurso apenas, não vai funcionar. Pense bem: quem mais se beneficia desse discurso? As mulheres, que estão reafirmando sua condição de ser sexual, mas ignorando todo o simbolismo patriarcal por trás dessa posição, ou os homens, que agora podem usar as mulheres como objetos sexuais com mais facilidade e sem o desencargo de consciência?

E esse discurso extremamente irresponsável já está dando seus frutos, ou melhor, consequências: menores de idade se expondo na internet, pois exibir seu corpo e afirmar sua sexualidade é empoderador. Mulheres se submetendo à relacionamentos abertos indesejados e à prática do poliamor mesmo quando não se sentem confortáveis, pois esse modelo de relacionamento anda de mãos dadas com a famigerada liberdade sexual. E temos também o infeliz discurso da prostituição como empoderamento, ignorando toda a realidade de abusos e exploração dessas mulheres.

Você não acha estranho como esse discurso funciona? No que ele se baseia? No que ele está focado? Essa proposta de libertação sexual para mulheres é, de fato, honesta? É, de fato, sobre o bem estar das mulheres? Ou é mais uma maquiagem? Uma tentativa de tapar o sol com a peneira? Uma tentativa de fazer nossas opressões parecerem atos empoderadores para que não os questionemos?

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O ponto aqui é: quando discutimos a libertação sexual feminina, tendo em vista o bem estar das mulheres e apenas isso, nós PRECISAMOS falar sobre toda a carga de opressão que acompanha nossa sexualidade. Não existe falar de um sem o outro. Não existe falar sobre a possibilidade da libertação sexual feminina sem falar de todas as amarras e de toda a violência que cerca esse tema.

Vamos discutir a libertação sexual feminina falando sobre estupro e sobre como o estupro é arma de guerra, é ferramenta de opressão, é a materialização do medo que faz a manutenção do status quo. Vamos falar sobre libertação sexual feminina falando de todas as vítimas de tráfico e exploração sexual. Vamos falar sobre libertação sexual feminina falando sobre a indústria pornográfica e o quanto ela é abusiva com as mulheres. Vamos falar sobre libertação sexual feminina falando sobre como ao longo da história da humanidade a mulher sempre foi vista como meio reprodutivo, para gerar filhos e herdeiros de grandes reis, para aumentar populações e, consequentemente, aumentar exércitos e aumentar o poder dos homens. Vamos falar sobre a sexualidade feminina nos termos do mundo, nos termos que nos foram impostos, e às nossas mães antes de nós, e às nossas avós antes delas.

Ninguém quer conversar sobre a libertação sexual feminina nos termos do patriarcado, pois o interesse não é esse. A libertação sexual feminina é tratada nos termos da utopia do feminismo liberal. O interesse do discurso “sexualmente libertador” não é atentar para a realidade da sexualidade feminina, o interesse não é alertar as mulheres sobre sua opressão. O interesse parece ser maquiar essa opressão, transformá-la em algo atraente para nós e, depois disso, em algo aceito. Isso, minhas queridas, é conformismo. Não é revolução.

Antes que me tomem por “moralista”, eu não estou pregando a castidade nesse texto. Eu não estou dizendo para as mulheres não se libertarem sexualmente ou não explorarem sua sexualidade. Eu estou propondo uma conversa mais honesta sobre essa sexualidade e sobre essa tão desejada liberdade. Eu estou propondo uma conversa sincera, que englobe as raízes da opressão feminina, que englobe a visão masculina da mulher como objeto de prazer e como máquina de procriação.

Agora pensa comigo em quem é mais moralista: uma mulher pedindo para suas companheiras reverem suas considerações sobre liberdade se atentando às suas opressões no âmbito sexual? Ou aquele cara maneiro da sua faculdade, inteligente, desconstruidão, que insiste na liberdade sexual feminina e que é adepto do poliamor, porque assim ele pode legitimar a prática milenar do homem ter mais de uma mulher à sua disposição? Qual dos dois está realmente interessado numa revolução? E qual está interessado em maquiar opressões para que elas se tornem atrativas às mulheres?

Mulheres dizendo “sim” para investidas sexuais de homens, sinceramente, nunca foi revolucionário: mesmo quando não queríamos nós sempre fomos obrigadas, coagidas, forçadas, a dizer sim. E muito mais do que isso, os homens nunca se preocuparam com o consentimento das mulheres. Nossa vontade nunca importou pois ela nunca existiu de verdade para eles. A revolução está muito mais no nosso “não” do que no nosso “sim”. A revolução está muito mais na nossa negativa de nos deixarmos ser usadas como objetos sexuais, a revolução está muito mais na nossa negativa em sermos transformadas em máquinas reprodutivas.

Isso tudo não quer dizer que não possamos dizer “sim” quando temos vontade, isso só quer dizer que nossa liberdade sexual está muito mais no fato de podermos dizer não, na condição de nos sentirmos seguras para dizer não, do que no fato de podermos dizer sim. Dizer “não” ao sistema sexual misógino que objetifica e animaliza mulheres é muito importante, porque a história do mundo está aí para nos lembrar que nem sempre nós, enquanto mulheres, podemos dizer “não” e ter nosso “não” respeitado. Nós temos o direito de dizer não. Por todas aquelas que não puderam. Por todas aquelas que não tiveram escolha.